(O Que Significa Ser Você) 

- by Lee Sora -

9


Quando Violet entrou no vagão, ela não tinha forças nem para andar.


Ao chegar à estação de trem, porém, um pouco de energia retornou aos seus olhos.


A estação de trem, às oito da noite, estava lotada. Lembrou-lhe uma festa.


Havia três tipos de vagões. Os assentos de primeira classe tinham apenas uma reserva por vagão. A segunda classe tinha assentos reservados para cerca de vinte passageiros, e os assentos comuns eram livres para todos. Os vagões estavam abarrotados de passageiros.


Para seu alívio, ela encontrou a carteira de Winter no bolso. O grosso maço de notas lá dentro provavelmente seria suficiente para durar um mês.


Violet sentiu sua consciência repreendê-la, mas naquele momento não tinha outra escolha. Como estava roubando o dinheiro dele, nem considerou a possibilidade de conseguir um assento de primeira classe. Também não tinha certeza se conseguiria um assento comum, então optou pela segunda classe.


Havia tanta gente na fila que ela demorou para comprar uma passagem. Depois de finalmente conseguir uma preciosa passagem de segunda classe, Violet murmurou para si mesma.


"Nunca viajei de trem sozinha antes." 


A voz soou estranha para ela. Hesitou. Tentou novamente, baixinho.


"Violet."


Havia muito mais coisas que ela queria ouvir dele, além do seu nome. Coisas como o quanto ele sentia sua falta, como preferiria ficar com ela hoje do que ir trabalhar.


Ele não a ouviu, mesmo quando ela implorou para que ele ficasse ao seu lado. Ela se repreendeu por desejar o impossível.


"Acho que superar o primeiro amor é bem difícil.”


O próximo trem logo chegou em meio a uma cacofonia de ruídos. As portas se abriram e Violet estendeu seu bilhete para o agente.


Ele rasgou a ponta para marcar como usado e a cumprimentou.


"Tenha uma boa viagem, senhor."


Ela se sentiu relaxar, por ter entrado no trem em segurança. Endireitou os ombros, que inconscientemente havia encolhido por causa da tensão.

Mas logo se deparou com outro problema. Ela não fazia ideia do que as palavras e os números em seu bilhete significavam. Enquanto olhava ao redor, confusa, uma mulher gritou com ele por trás.


"Não bloqueie a passagem, grandalhão!"


"Ah, d-desculpe."


Violet se desculpou apressadamente e mostrou o bilhete para a mulher.


"Sabe onde devo sentar?"


"Como você conseguiu entrar no trem? Está escrito bem ali em cima!"


A mulher apontou para cima. Violet finalmente entendeu como ler seu bilhete. Ela inclinou levemente a cabeça para a direita e sorriu.


"Obrigado."


A mulher corou com o tom gentil dele.


"Bem, você tem um sorriso muito bonito."


Ela havia notado a atitude das pessoas em relação a ela. As pessoas frequentemente lançavam olhares furtivos para o rosto e o corpo de Winter. Com as mulheres, isso acontecia o tempo todo, e até mesmo as crianças fixavam o olhar nela quando ela se aproximava, sem demonstrar nenhum medo. Aparentemente, ela não era a única que o achava atraente à primeira vista.


Violet sentou-se em um assento perto da janela. A cadeira era desconfortável e cheirava a poeira. Ela voltou sua atenção para fora da janela.


Pessoas que acabavam de descer do trem sorriam e cumprimentavam aqueles que as esperavam na plataforma.


Alguém apareceu ao seu lado. Era uma mulher da idade de Violet, e aparentava ser uma aristocrata. Ela estava com dificuldade para colocar uma grande mala na prateleira.


"Deixe-me ajudá-la com isso."


Pensando que um cavalheiro provavelmente não deveria ficar sentado observando em uma situação como essa, Violet se levantou imediatamente. Ela ergueu a enorme mala sem muito esforço e a colocou na prateleira. Ela nunca teria ousado sequer tentar levantá-la sozinha.


Quando Violet se sentou novamente, a mulher sentou-se ao lado dela.


"Obrigada!"


"Não há de quê."


"Você está indo para a capital?"


"Sim."


"Eu também! Fugi de casa!"


"O quê?”


"Meus pais sempre me diziam que eu era uma esbanjadora porque nunca trabalhei um dia sequer na vida. Então, eu fugi de casa!"


Violet riu apesar de si mesma. 


"Entendo."


"E o senhor?"


"Estou a negócios."


"Estava me perguntando, mas por acaso o senhor é ele? Lorde Winter Blooming?"


"Isso mesmo."


"Sou Sharon. Sharon Doss."


Violet sorriu e assentiu.


Ela reconheceu o rosto por baixo do chapéu. Era a única filha mulher do Duque Doss, que tinha muitos filhos. Era amiga de infância de Violet. Elas faziam aulas de balé juntas desde os sete anos. Violet falou: 


"Ouvi minha esposa mencionar a senhorita. Vocês fizeram balé juntas, não é?"


"S-sério? Violet fala de mim? Então eu não sou a única que se lembra!"


"Ela parece ter lembranças muito carinhosas da senhorita."


Sharon, animada com a notícia de que Violet se lembrava dela, começou a tagarelar sobre sua infância.


Enquanto as duas conversavam, um funcionário da estação tocou o sino de partida furiosamente. As portas do trem se fecharam com um estrondo, e ele começou a se mover com um rangido enorme.


***


Winter esperava irritado na vila à beira-mar. Hayell finalmente apareceu com uma carruagem. Winter parecia uma bomba-relógio prestes a explodir. Hayell correu até ele.


"Senhor!"


"...Como você sabe?"


Sua expressão e atitude eram totalmente iguais as de Winter, mas ele estava no corpo de Violet. Ele parecia surpreso com o fato de Hayell saber com quem ele estava falando.


"O senhor me pediu para procurar casos em que membros da família Conic tivessem sofrido troca de corpos, lembra? E só tem um cavalo amarrado ali, mas o senhor não sabe montar."


"Você está bancando o esperto, para variar."


"Eu sou esperto, senhor. Por que o senhor não começa a aprender a andar a cavalo? Tenho certeza de que com seus reflexos não vai demorar muito."


"Não quero aprender a andar a cavalo com crianças de sete anos. Também não tenho tempo para isso.”


Respondeu Winter, franzindo a testa.


Eles retornaram à mansão na carruagem.


O dia de Winter estava longe de terminar. A festa de aniversário do Duque James Blooming estava apenas começando.


Winter mandou um médico cuidar de sua mão assim que voltou. Sentou-se em frente a uma penteadeira.


As criadas trouxeram os vestidos que ela usaria na festa, e Winter os observou.


Sua esposa devia ter fugido desta festa.


Enquanto ela estivesse em seu corpo, não corria grande perigo. O que significava que tudo o que ele precisava fazer agora era tomar o lugar dela nesta festa que ela tanto odiava, por razões desconhecidas.


Winter nunca suportava perder. Ele precisava tirar algum proveito daquela situação.


Winter olhou para os vestidos que as criadas haviam trazido. Pareciam roupas de funeral. Ele se levantou. Dirigiu-se ao seu quarto, e Hayell o seguiu a trote.


"O que o senhor está fazendo?"


"Vou fazê-la usar o que eu quero."


"Ela vai ficar chateada depois..."


"Ela roubou meu corpo sem minha permissão. Farei o que quiser enquanto estiver neste corpo. Assim, ficamos quites."


Winter falou como se fosse a coisa mais natural do mundo e entrou em seu próprio camarim. Ele abriu outra porta dentro do seu closet, revelando um cômodo repleto de cerca de cem vestidos que Hayell comprava assiduamente sempre que tinha tempo.


Três anos atrás, as coisas estavam tão agitadas e as dificuldades financeiras tão grandes que ele só comia sanduíches. A imagem pública do homem que quitara as dívidas da nação, no entanto, jogava a seu favor, e os clientes continuavam a frequentar seu hotel. As finanças haviam se estabilizado desde a primavera passada.


Naquela época, ele enviou cerca de cinco vestidos de festa para Violet.


Alguns dias depois, todos, exceto um cor de madeira, foram devolvidos.


Sua mãe escreveu-lhe dizendo que Violet, por ser da realeza, não gostava de vestidos tão extravagantes.


Depois de algumas recusas, ele simplesmente começou a empilhar os novos vestidos em seu próprio closet.


Pensando que aquela era sua chance, ele entregou um vestido para Hayell segurar e abriu o cofre. Lá dentro havia todo tipo de joias.


Winter colocou um colar com enormes diamantes em forma de lágrima e várias pulseiras. Hayell hesitou.


"Os joalheiros não te disseram? Mulheres não gostam de usar joias tão pesadas. Que tipo de nobre usa tantas joias?"


"Cale a boca. O marido dela comprou joias demais, e ela não tem escolha a não ser usá-las. Que se dane o que eles pensam."


Esse era o jeito normal de Winter falar, mas era estranho ouvir palavras tão grosseiras saindo dos lábios delicados de Violet. Hayell estremeceu e assentiu.


Winter olhou para o vestido e resmungou: "Não faço ideia de como vestir isso."


"Gostaria que eu te ajudasse?"


 "Saia da minha frente! Como ousa tocar neste corpo? Chame as criadas."


"...Por favor, não me xingue com essa voz. Dói muito, muito mais."


Disse Hayell, lamentando-se. Ele saiu correndo para chamar as criadas. Logo, elas entraram, chocadas com a opulência do camarim.


Depois que Winter expulsou Hayell, as criadas trabalharam diligentemente para ajudar a pequena senhora com o vestido. Os olhos de Winter estavam fixos no espelho.


Uma criada estava ajeitando o cabelo curto quando falou sem pensar:


"Como os vestidos brancos ficam maravilhosos em você! Você parece uma noiva em um casamento…"


Outra criada empalideceu e deu um tapa no braço dela. A criada que falou percebeu o erro e levou a mão à boca.


Winter franziu a testa. 


"O que foi isso?"


"M-me desculpe, senhora!"


As duas criadas empalideceram com o tom irritado de Violet. Nunca a tinham ouvido falar assim. A carranca de Winter só aumentou.


"Por que vocês não podem falar sobre casamentos na minha presença? Contem-me o que está acontecendo."


Winter apontou para a criada que havia dado um tapa no braço da outra.


Ela baixou a cabeça e murmurou:


"Na n-noite do seu casamento... Seu marido desapareceu sem dizer uma palavra..."


"Sabemos que ele estava chateado, mas sabemos o quanto você estava preocupada, esperando por ele a noite toda sem nem tirar o vestido. Eu me lembro de como isso foi perturbador e... Me desculpe, eu não deveria ter dito nada!"


Winter ficou sem palavras. Era a primeira vez que ouvia falar disso.


No dia do casamento, Winter estava furioso e embarcou imediatamente num trem para a capital. O título que lhe era devido não seria seu, e ele tinha muitas coisas para encobrir.


Era costume os casais passarem a noite no mesmo quarto na primeira noite de casamento, independentemente de consumarem ou não o matrimônio naquela noite. Isso significava que, se ninguém tivesse contado a Violet que ele havia saído, ela o teria esperado a noite toda no quarto deles.


Winter finalmente entendeu pelo menos um dos motivos pelos quais Violet estava pedindo o divórcio.


tradução by CAMÉLIA

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