(O Que Significa Ser Você) 

- by Lee Sora -

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Violet desembarcou do trem na capital e suspirou.


Ela se sentiu mal por ter repreendido Winter por se mexer inquieto dentro do trem. Sentar-se nos assentos da segunda classe com suas longas pernas em um espaço apertado tinha sido muito difícil. Ela teve que se levantar algumas vezes durante a viagem.


Sharon desembarcou do trem com ela.


"Para onde vai, Lorde Blooming?"


"Vou visitar a Casa Filice."


Ella Filice, mãe de Violet e Ash, vivia nas terras dos Filice depois que seu marido morreu e a Casa Real foi dissolvida. Ela amava seu filho muito mais do que sua filha, mas foi gentil o suficiente para criar um pequeno refúgio para ela. Com a condição, é claro, de que isso não incomodasse Ash.


Violet de repente se lembrou de algo e se virou para Sharon.


"Ouvi dizer que o Ducado de Doss... oferece novas identidades."


"Ah, sim. Temos uma população tão pequena que os recém-chegados recebem cidadania e uma nova identidade imediatamente. A menos que sejam criminosos, é claro."


“Entendo.” 


Violet assentiu.


Agora que estava decidida a se divorciar, precisava de um plano. Se não conseguisse um divórcio legal, fugiria no meio da noite.


A morte continuava a lhe escapar, então ela partiria.


Deixaria para trás esse coração pesado e viajaria, com os pés leves.


Seu marido não iria se preocupar muito, mesmo que ela desaparecesse. Violet pensou amargamente consigo mesma que seu marido era o tipo de homem que levaria pelo menos três meses para perceber seu desaparecimento.


Violet chegou à capital por volta das 4 da manhã.


A maioria dos recém-chegados estava sentada na estação, tomando café e comendo um lanche leve enquanto esperavam o sol nascer. Violet achou que seria indelicado visitá-la tão cedo e decidiu esperar na estação também.


Sharon, por outro lado, foi até a frente da estação esperar a carruagem do hotel que viria buscá-la. Violet a acompanhou para se despedir.


Sharon pareceu aliviada.


"De qualquer forma, senhor, o senhor parece saber muito bem sobre a Violet."


Violet apenas sorriu. Sharon pareceu hesitar por um momento se deveria continuar.


"Na verdade, Violet tem fantasias enormes sobre casamento desde jovem. Ouvi alguns rumores de que vocês dois não se davam muito bem... e fiquei preocupada."


"...É mesmo?"


Ela realmente tinha esses devaneios?


Enquanto Violet tentava entender se aquilo era verdade, Sharon assentiu.


"Você sabe como era. O Rei Lawrence estava muito ocupado com as políticas fracassadas antes de falecer, e Sua Majestade a Rainha só tem afeição pelo filho... Tenho certeza de que todos nós fazemos isso quando crianças, mas Violet tinha tantas esperanças de formar sua própria família. Nenhuma criança poderia ter gostado mais de brincar de casinha.”


Violet se lembrava vagamente de que gostava de brincar de casinha.


Sharon brincou: 


"Eu não gostava de ser sempre a bebê. Queria ser o papai, sabe? Ou o médico!"


Violet se lembrou de que Peren Doss, irmão de Sharon e dois anos mais velho que ela, brincava com elas. E como Sharon fazia aniversário por último, ela sempre fazia o papel de bebê.


Violet sentia falta daqueles tempos. Ela sorriu. Sharon sorriu junto com ela.


"Fico tão feliz que Violet tenha conhecido uma pessoa tão incrível como você."


A carruagem parou em frente a elas. Violet disse apressadamente, enquanto entrava: 


"Vou pedir para minha esposa entrar em contato com você."


"Por favor, faça isso! Meu irmão também perguntou como ela está!"


Sharon ´se despediu várias vezes antes de partir.


Violet pensou que ainda bem que não tinha morrido. Ela havia se esquecido de que algumas pessoas se lembravam dela de vez em quando.


Isso lhe deu um pouco de energia. Ela entrou na delegacia.


Um policial se aproximou e, timidamente, tirou o chapéu.


"Com licença, senhor. Posso ver sua identificação?"


"Sim, claro. Para que serve?"


"Fazemos verificações aleatórias a esta hora."


"Ah, entendi."


Violet assentiu e tirou o documento de identidade da carteira. Os olhos do policial se arregalaram.


"Céus! O senhor é Lorde Winter Blooming. Me desculpe por não tê-lo reconhecido. Mil desculpas!"


"Não precisa se desculpar tanto…”


O policial empalideceu. Ele saiu correndo antes que Violet pudesse terminar a frase. Violet observou confusa, e um jovem que passava por ali falou com ele.


"Acho que o senhor teve azar esta manhã."


Violet o encarou. O homem deu de ombros. 


"Meu pai também é um outlander. Felizmente para mim, eu consegui passar. Meus olhos e cabelos são totalmente pretos. Meu pai, por outro lado, ainda passa por essas verificações de identidade aleatórias de vez em quando."


Violet ficou imóvel quando percebeu o que significava "passar".


Os outlanders que viviam em Lacround, aqueles de sangue Conic, tinham cabelos e olhos cinzas bem visíveis. Winter tinha os cabelos pretos do pai e os olhos cinzentos da mãe.


O marido de Violet agora era poderoso o suficiente para intimidar um policial, mas sua aparência não era suficiente.


***


A mãe de Winter o deixou em um restaurante quando ele tinha cinco anos e nunca mais voltou.


Depois disso, Winter trabalhou como empregado do dono do restaurante.


Não havia um dia sequer em que ele não apanhasse. As surras continuaram até ele completar doze anos. Nessa época, ele fugiu do restaurante e foi para as Montanhas Vaidellin, sobre as quais ouvira as pessoas falarem. Gastou o pouco dinheiro que conseguira juntar para comprar um carrinho cheio de grãos de café.


Ele fez a perigosa viagem de volta pelas Montanhas Vaidellin e seguiu para a Casa Blooming, pois era lá que sua mãe lhe dissera que seu pai morava. Os Blooming ficaram surpresos quando Winter apareceu à porta, mas sorriram ao ver os grãos de café empilhados em seu carrinho.


Após sua solitária viagem pelas montanhas, o valor dos grãos havia se multiplicado por dez. Winter tinha um talento especial para ganhar dinheiro desde jovem.


Lacround passava por uma crise econômica na época, e o status de nobre não era mais a solução mágica que um dia fora. Para que o Duque Blooming e sua esposa permanecessem à frente dos Wohossen, nome pelo qual os aristocratas do sul se autodenominavam, precisavam de dinheiro.


Tudo o que sabiam fazer, porém, era gastar dinheiro. Precisavam de alguém na família que entendesse de finanças.


Os dois decidiram acolher Winter de braços abertos, e a estabilidade que ofereceram, que Winter jamais experimentara, era inebriante.


Ele continuou comprando o amor deles com dinheiro, já que seus novos pais lhe vendiam o amor dessa maneira.


Winter completa vinte e sete anos este ano. Até então, não havia havido nenhum problema nesse acordo.


Hoje, porém, os Blooming estavam muito nervosos.


Eles sempre temeram o que aconteceria quando Winter formasse sua própria família. Embora Ash fosse contra, para eles não era tão ruim assim que Winter se divorciasse de Violet.


O pior cenário seria o relacionamento deles melhorar a ponto de se mudarem das terras dos Blooming para trilhar seu próprio caminho. E se Violet perguntasse ao marido por que Winter pagava todas as despesas das festas dos pais dele...


Catherine tentou afastar a ansiedade e conversou com o marido.


"Violet está atrasada."


"Você tem razão."


Resmungou James, em desaprovação.


"Eu sabia que ela sempre fingia estar doente, mas não imaginei que se atrasaria para a minha festa de aniversário."


"Ela chegará em breve. E ela está mesmo um pouco frágil, não é?"


"O médico diz que é bobagem."


"Mas há três anos ela está..." Catherine murmurou, com a voz arrastada.


Uma nobre próxima sussurrou para ela: 


"Parece que os dois não conseguem ter filhos, não é?"


"Eu também estou preocupada com isso."


Catherine suspirou. Outras pessoas ao seu redor começaram a opinar, afirmando ter certeza de que havia algo errado com Violet.


Um silêncio estranho pairou sobre a entrada do salão de banquetes.


Violet entrou. Ela usava um vestido tão branco que parecia iluminar o espaço ao seu redor e um enorme colar de diamantes.


Ela se aproximou e cumprimentou o casal: 


"Desculpem o atraso. Estava me certificando de estar apresentável para esta ocasião especial."


Após um breve silêncio, Catherine falou, confusa:


"Violet, esta festa hoje é para o meu marido. Você não acha isso... um pouco exagerado?"


"É exatamente o que eu acho.” Respondeu ela. 


"Meu marido comprou tudo isso para que eu pudesse usar hoje."


Violet ergueu o braço esquerdo para que eles vissem. Nele havia três pulseiras tilintantes. 


"Meu marido fica chateado se eu esqueço uma sequer, então não tive muita escolha.”


Continuou ela.


Ash havia contado aos Bloomings que Winter provavelmente já sabia do pequeno incidente no armário. Catherine se sentiu ameaçada pela atitude destemida e pelo olhar confiante de Violet. Aquilo era completamente diferente dela.


Ela decidiu se afastar por enquanto e sorriu. 


"Bem. Se Winter pediu, acho que tudo bem."


"Feliz aniversário, Duque Blooming." 


Violet deu um breve sorriso e imediatamente se virou.


As regras de etiqueta exigiam que se esperasse uma resposta após cumprimentar. Devia haver um motivo para Violet ter se virado daquela forma, sem ouvir o Duque falar. Ela também estava vestida como uma pessoa completamente diferente.


O casal sentiu que algo havia mudado. Algo deu confiança a ela. Uma profunda apreensão os dominou.


tradução by CAMÉLIA

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