(O Que Significa Ser Você) 

- by Lee Sora -

7


Winter pretendia ficar acordado a noite toda trabalhando no escritório principal do Hotel Conic na ilha, mas achou difícil se concentrar por causa do que Violet havia dito sobre seu funeral.

Ele levou os documentos para o hotel onde estava hospedado.

"Já pensei em morrer. Às vezes parece melhor do que viver assim."

O tom resignado dela ecoou em sua mente. Ela devia estar exagerando. Tinha que estar.

Ele sabia que ela o odiava desde o primeiro momento, quando foi forçada a se casar com ele pelo sagrado dever de quitar as dívidas do reino. Que motivo ela teria para pensar em suicídio?

Ele odiava o fato de que as palavras dela o afetassem tanto. Sem dúvida, ela as disse levianamente, coisa de momento. 

Alguém bateu à sua porta.

"Winter."

Era a voz de Violet. Winter largou os documentos, nenhum dos quais ele realmente lera. Correu para a porta. Quando a abriu e parou muito perto do rosto dela, Violet ergueu os olhos. A diferença de altura entre eles impedia que ela o encarasse de outra forma.

Ela permaneceu naquela posição, olhando para ele por um tempo.

Olhava para ele como se o visse pela primeira vez em muito tempo. 

"Quero o divórcio."

Winter ficou em silêncio. Simplesmente a encarou. Se esforçou para encontrar algo para dizer.

"Se é isso que você quer. A qualquer momento."

"Mesmo?"

"Mas você terá que me devolver o dinheiro que paguei por este casamento."

Violet hesitou. Winter continuou, mantendo a compostura intacta: 

"Como você deve saber, três anos geram juros. Acho que isso daria pelo menos 27 milhões de laakne."

“...”

"Ah, já que você suportou a indignidade de ser minha esposa por três anos, suponho que terei que eliminar os juros. O que mais... Devo te pagar por todo o tempo que você passou na cama também?”

Winter aproximou-se e Violet recuou. Pouco antes de seu corpo encostar na parede, Winter inconscientemente colocou a mão entre a cabeça dela e a parede, pensando que precisava proteger a princesa.

Graças a esse gesto, seus rostos estavam quase se tocando. Winter inclinou-se e falou com uma mistura de raiva e ressentimento.

"Divórcio? Como você, de todas as pessoas, pôde me dizer isso?" 

Ele falou violentamente. Precisava, de alguma forma, fazê-la mudar de ideia. 

Violet esperava que ele mencionasse o dinheiro quando ela perguntasse sobre o divórcio. Afinal, esse fora o motivo pelo qual ela tolerou a situação por três anos inteiros. Ela não esperava, no entanto, que ele reagisse com tanta raiva.

Violet soltou um longo suspiro. Olhou para o chão.

"Eu sei que você sofreu enormes perdas ao se casar comigo. Mas continuar com esse casamento indesejado não aumenta ainda mais seu prejuízo?"

"Como você ousa pensar…"

"Em vez disso, simplesmente se divorcie de mim e me transforme em uma devedora. Eu sei que não tenho esperança de pagar todo esse dinheiro sozinha. Não me importo de morrer tentando. Isso ainda é… um melhor negócio para você, não é?"

"Você quer se divorciar de mim nesses termos? Por quê? Qual é o motivo?"

Violet sentiu um leve sorriso surgir em seus lábios. 

"Eu já te disse tantas vezes. Como você ainda não sabe? Por que... por que você me odeia tanto?"

"...O quê?" 

Winter não tinha ideia do porquê de ela estar dizendo essas coisas.

Por que sua esposa estava perguntando por que ele a odiava tanto?

As mãos de Winter tremiam. Ele se sentia como um barqueiro preso em um tufão. Seu sangue parecia ferver dentro dele, e sua mente estava repleta de raiva e desespero. Ela estava fora de si, ele sabia disso. Ele também não se sentia são.

Ele queria agarrá-la. Queria arrastá-la para algum lugar e trancar a porta. Parecia que, caso contrário, ela simplesmente desapareceria.

Tudo o que ele conseguiu fazer foi balbuciar uma resposta abafada.

"Eu não te odeio. E também não tenho intenção de me divorciar de você. Além disso, se eu não quiser o divórcio, ninguém vai te ajudar a consegui-lo. Você sabe disso, não é?"

"Eu... eu sei."

"Então nunca mais toque nesse assunto." 

Winter recuou. Olhou para o nada, tentando se acalmar. Então se virou e desapareceu em seu quarto. O som da porta batendo a assustou, e ela fechou os olhos bruscamente.

"Eu não te odeio."

"Mentiroso."

Violet sussurrou melancolicamente enquanto caminhava de volta para seu quarto.

***

Uma coisa ficou clara depois daquela conversa.

Enquanto houvesse dinheiro envolvido, ela não tinha esperança de conseguir o divórcio sozinha. Ela odiava Ash, mas precisava da ajuda dele. Ash tinha sido quem pegou o dinheiro do marido dela e depois quebrou a promessa. Agora que a dívida estava completamente paga e ele estava se tornando popular entre as pessoas, ele era o único que tinha o poder de ajudá-la.

Ela escreveu para ele, pedindo que encontrasse uma maneira de conceder um título a Winter. Explicou que essa era a única maneira de conseguir o divórcio. Violet sabia que Ash tinha seus seguidores. Devia haver alguma brecha legal que ele pudesse explorar. Uma vez resolvido o título, certamente o divórcio não teria nenhum impacto sobre Ash.

Violet pegou um trem de volta para casa alguns dias depois.

Winter sentou-se na poltrona em frente à dela. Ele parecia determinado a agir como se ela nunca tivesse mencionado o divórcio.

Ele esvaziou uma caneca de cerveja antes mesmo do trem começar a se mover. Ele bebeu e bebeu durante toda a viagem de sete horas.

Violet, incapaz de suportar a cena por mais tempo, finalmente falou.

"Você não está bebendo demais?"

"De jeito nenhum.”

Respondeu Winter em tom de deboche.

"O quê? Talvez nossa querida princesa me ache vulgar demais para o seu próprio padrão?"

"Meu pai bebia. Só estou preocupada. Você pode passar mal. E..."

"E o quê?"

"Nunca se deve chamar outra pessoa de vulgar.”

Violet o repreendeu e não disse mais nada. Ela esperava que ele ficasse irritado, mas ele pareceu surpreso. Virou-se para a janela e apoiou o queixo na mão.

"...Somos todos tão arrogantes, não somos."

Violet inclinou a cabeça, olhando para Winter. O vento que entrava pela janela bagunçava seus cabelos negros como azeviche, que batiam contra sua pele cor de cobre brilhante. Ela já havia desistido de salvar o relacionamento, mas em momentos como aquele, se pegava olhando para ele, uma estranha melancolia a invadindo.

Quanto mais perto chegava de casa, mais difícil ficava respirar.

Ainda assim, o breve descanso e o novo remédio lhe deram muita energia. O novo remédio, em particular, reduziu a frequência de suas dores de cabeça pela metade. Isso a deixou radiante.

Quando chegaram ao destino, Winter desceu do trem primeiro. Ele se virou para Violet enquanto ela o seguia.

"Incrível. Como você consegue ficar sentada na mesma posição por sete horas seguidas?"

Violet reagiu ao tom sarcástico dele repreendendo-o.

"Por que você se mexe tanto? Quase pensei que estava viajando com uma criança pequena."

“Os assentos eram desconfortáveis.”

Resmungou Winter, como se nada tivesse acontecido entre eles.

Ele enfiou as mãos nos bolsos e começou a caminhar em direção à carruagem que o aguardava. Virou-se ao perceber que Violet não o seguia. Violet estava olhando fixamente para um menino que vendia flores.

Ela se virou lentamente para Winter e disse:

“Você me compraria algumas flores? Como agradecimento pelo contrato.”

Winter franziu a testa.

"Peça algo decente. Tenho certeza de que você vai pedir mais depois."

"Gostei dessas flores."

"Depois, então. As flores de casa são melhores do que essas."

"Compre-me algumas flores. O rapaz ali está vendendo. As flores de casa não são um presente. Quero flores de presente. Compre-me algumas, por favor."

Winter não viu diferença, mas mesmo assim foi até o rapaz. Olhou na cesta dele e comprou uma rosa que ainda não tinha desabrochado.

"Aqui."

"Obrigada."

Violet pegou com as duas mãos, a rosa que Winter lhe entregou num gesto brusco. Ela tinha um olhar melancólico, não como alguém que acabara de receber um presente. Sorriu para Winter.

"É bonita."

"Você me pediu o divórcio…" 

Disse ele.

"E agora está sorrindo?"

 "Você tem razão.”

Disse Violet, segurando a flor delicadamente nas mãos e caminhando em direção à carruagem.

Assim que voltou para o quarto, Violet pegou um vaso no depósito e colocou a flor dentro.

Para surpresa de todos, Winter ficou uma semana inteira antes de retornar à capital. Ele ainda estava ocupado com o trabalho e não falou com Violet, mas era a primeira vez que ficava tanto tempo na mansão.

Violet não conseguia entender por que Winter odiava tanto o divórcio. Tentou descobrir se aquele casamento o beneficiava economicamente de alguma forma, sem que ela soubesse, mas não tinha como saber.

***

Duas semanas haviam se passado desde que ele deixara a mansão; era aniversário do Duque James Blooming.

Winter retornaria naquela noite para a festa de aniversário do pai. Violet queria conversar mais com ele quando voltasse.

Para ir ao chá da tarde que sempre acontecia depois do almoço, Violet vestiu um vestido roxo escuro. Terminou de se arrumar e estava prestes a sair do quarto quando a porta se abriu de repente e Ash Lawrence entrou. Ele não bateu. Catherine Blooming estava atrás dele.

Violet se levantou. Sentiu-se nervosa ao ver as expressões rígidas dos dois.

Ash falou com desgosto.

"Divórcio? Como você pode dizer uma coisa dessas? Por quê? Qual é o motivo?"

Violet parou ao ouvir a voz raivosa dele. Catherine, que Ash provavelmente trouxera consigo, falou com tristeza.

"Violet. Eu realmente… fiz o meu melhor. Ignorei quando você mentiu para nós todos os dias dizendo que estava doente."

Sua voz tremia. Ela parecia uma mulher à beira do desespero.

"Eu sei que o status de Winter deve ter parecido inadequado para você. Mas você sabia disso quando concordou em se casar com ele, não é? Violet, você faz parte da família agora. Princesa ou não, você não pode simplesmente ter tudo do seu jeito. Eu sei que provavelmente a culpa é minha por não ter te educado direito... mas isso ainda é muito angustiante."

Violet sentiu como se seu coração estivesse se partindo, os músculos se contraindo, batendo descompassadamente. Ela se lembrou de Catherine e suas amigas a ridicularizando por horas a fio enquanto ela estava sentada entre elas.

Pensar em como fora forçada a ouvir tudo aquilo sem poder dizer uma única palavra a fez sentir como se sua mente fosse explodir. Ela não podia mais viver assim.

Ela cuspiu as palavras: 

"Eu não me importo com o status do meu marido. Não é por isso que quero o divórcio. Não quero ter que ficar sentada ouvindo as pessoas me insultarem na hora do chá."

"Vi-violet..."

Lágrimas escorreram dos olhos de Catherine. Violet encarou Ash e continuou:

"E eu não entendo por que devo ser tachada de golpista. Foi você quem mentiu. Por que eu devo…"

Ash a interrompeu indignado:

"Você sabe tão bem quanto eu que dissolver a Casa Real era o que o povo queria. Você ouviu as multidões protestando nos portões diariamente, não ouviu? Como isso pode ser considerado egoísmo?”

Havia um motivo para Ash ter que impedir esse divórcio, custasse o que custasse.

Os Bloomings e Ash Lawrence estavam conspirando para roubar o dinheiro que Winter havia destinado a Violet. Winter não demonstrava o menor interesse nas finanças de Violet, o que tornava isso possível. E Winter não sabia que o status real de Ash lhe permitia desviar o dinheiro de Violet pelo banco sem deixar rastros.

Se Violet conseguisse o divórcio, nenhum deles receberia mais dinheiro. Era do interesse deles dobrá-la à sua vontade e fazê-la permanecer casada.

Catherine e Ash consideravam indigno bater em alguém. Aristocratas jamais batiam em seus filhos, mesmo quando faziam algo errado. Em vez disso, preferiram trancá-la em um armário.

Ash fez um pedido educado a Catherine.

"Lady Catherine, eu dou minha permissão, então, por favor, coloque-a no caminho certo usando todos os meios necessários. Por favor."

Catherine assentiu. 

"Violet. Você precisa entender que essa punição é para o seu próprio bem. Você entende, não é?"

"O que diabos é isso...?"

Violet lutava para entender o que estava acontecendo. Duas criadas que Catherine trouxera consigo a agarraram e a empurraram para dentro do armário. Correntes foram enroladas nas maçanetas e um cadeado foi colocado. Catherine falou com a voz trêmula.

"Você sabe o quanto me dói quando você age assim? Você é praticamente minha filha. Pense em suas ações aqui até o anoitecer."

Logo ela ouviu as duas saindo do quarto e a porta se fechando.

Tudo ficou em silêncio.

Violet desabou no chão, sentada.

Ela ficou sentada ali por um longo tempo, com a testa encostada na parede, pensando na morte.

Isso a fez lembrar do dia em que tentou tirar a própria vida.

Naquele dia, seus corpos foram trocados depois que ela tomou um frasco inteiro de comprimidos para dormir.

***

Violet abriu os olhos lentamente. Estava encolhida no armário.

Ela havia batido nas portas com tanta força que provavelmente desmaiou. Empurrou as portas e, felizmente, elas se abriram.

O sol estava se pondo.

Sem forças para andar, ela ficou sentada encostada no armário por um longo tempo. Seu olhar se deteve na rosa no vaso. A flor que Winter lhe dera havia murchado, mas ela colocara uma rosa semelhante em seu lugar. Queria se lembrar de que fora presenteada com uma flor.

A flor a fez lembrar dele.

"Eu não te odeio."

Na época, ela pensara que ele estivesse mentindo, mas precisava de mentiras como aquelas agora.

Winter havia percebido a terrível condição de Violet ainda melhor do que ela mesma, após a troca de corpos. Agora, tudo o que Violet queria era conversar com alguém sobre a dor que sentia. Não importava com quem.

Determinada a encontrá-lo, ela saiu do quarto com dificuldade.

Para seu alívio, Winter trouxera algumas pessoas da festa que poderiam ajudá-lo em seus negócios. Ele estava conversando com eles na mansão.

Ele estava sentado em um sofá, recostado com as pernas cruzadas. Fumava, falava de negócios e, às vezes, ficava irritado e soltava palavrões.

O pensamento que mais lhe vinha à mente era o ressentimento.

Como teria sido bom se ele tivesse chegado em casa e a procurado primeiro? Se tivesse se afastado e dito olá? Ele a teria encontrado sentada no armário, e essa tristeza não seria tão insuportável.

Ela tentaria perguntar a ele mais uma vez. Pedir que ficasse ao seu lado hoje, só por hoje.

Violet mal conseguiu manter uma expressão calma antes de se aproximar deles. Apesar da dor lancinante que sentia, lembrou-se de suas boas maneiras e acenou gentilmente para os convidados.

"Fico feliz em ver todos vocês. Divirtam-se."

Todos se levantaram para cumprimentá-la. Feitas as saudações, Violet chamou Winter cautelosamente.

"Winter, podemos conversar?"

Winter respondeu em tom baixo: 

"Estou no meio de uma conversa importante."

"Eu também tenho algo importante para dizer. É muito... muito importante."

"Espere por mim no quarto. Já subo."

Winter tentou ser gentil, pois havia convidados observando, mas seu tom já estava um pouco irritado. Violet puxou sua mão. 

"Por favor, precisamos conversar agora."

"Eu falei que já vou subir."

Winter puxou a mão da de Violet.

Violet olhou para as próprias mãos sem abaixá-las.

Ele também havia puxado a mão da dela no dia do casamento. 

Ela precisou de muita coragem para segurar a mão dele naquela ocasião. Os assuntos dele sempre vinham em primeiro lugar, e a coragem que ela teve para estender a mão para ele só a deixou infeliz.

Violet pensou consigo mesma que provavelmente nunca conseguiria segurar a mão dele direito. Lentamente, virou-se.

Saiu da mansão imediatamente.


tradução by CAMÉLIA

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