(O Que Significa Ser Você) 

- by Lee Sora -

6


A capital não havia mudado muito nos últimos três anos.

Violet viu um retrato de seu irmão, Ash Lawrence, pendurado em uma parede ao passar.

Lacround evitou uma grande catástrofe ao casar Violet com Winter Blooming. Ash divulgava diariamente sua vida atual em uma fazenda nos jornais, conquistando o apoio da população. 

Violet odiava vê-lo. Ela fechou as cortinas.

 A carruagem parou numa pequena ilha no estuário do rio Rekkle, que atravessava as terras de Lacround.

Lulu saiu da carruagem.

"Este lugar é famoso entre os turistas atualmente. Aparentemente, os turistas estrangeiros sempre param aqui.”

“Parece muito bonito.”

Pequenas lojas se aglomeravam na frente da ponte e, além dela, do outro lado. Violet começou a andar mais rápido, extasiada com a paisagem do mundo exterior.

O dia estava quente. Winter jogou o casaco sobre um ombro. Olhou para o relógio e franziu a testa.

"O que a está atrasando tanto?"

"Ainda faltam dois minutos, senhor.” 

Resmungou Hayell.

"E eu só enviei as roupas para ela depois das dez. É claro que ela vai demorar mais para se arrumar."

"Você está do lado de Violet desde ontem. O que está acontecendo?"

Winter pareceu ter percebido só agora. Hayell desviou o olhar.

Winter estalou a língua.

"Sem dúvida, ela vai aparecer com um de seus vestidos pretos de sempre."

"O senhor provavelmente tem razão. Eu me pergunto por que ela insiste em usar sempre lã preta ou cinza? Nunca com estampas, também."

"A preciosa princesa e seus gostos..."

A voz de Winter foi diminuindo quando ele viu Violet se aproximando de longe.

Violet estava vestida de uma maneira completamente diferente do que Winter esperava. Ela parecia uma flor da primavera que tinha desabrochado pela primeira vez. Fresca e encantadora.  Violet viu Winter e caminhou graciosamente até ele, como sempre fazia. Sua voz soava alegre hoje.

"Vamos comer?"

"Pensei que você usaria algo escuro de novo."

"...Por que você pensou isso?"

Perguntou ela.

"Você gosta de preto, não é?”

Violet fez menção de falar, mas pareceu reconsiderar. Ela não tinha energia para explicar todas as pequenas emoções para ele. Não era que ela não tivesse forças para falar. Ela simplesmente não suportaria a resposta fria que ele invariavelmente demonstraria. Violet mudou de assunto: 

"Estou com fome. Vamos."

Os dois entraram no restaurante, a poucos passos de distância. Quando Violet se dirigiu para as escadas, Winter segurou seu pulso. Ele disse:

"É no quinto andar. Você não pode andar."

"Meu quarto também fica no quinto andar."

Winter imediatamente ordenou a Hayell, que vinha uns cinco passos atrás:

"Mande instalar um elevador na mansão."

"Sim, senhor."

Hayell saiu correndo. Violet deu um suspiro curto. Ele devia ter tido muita dificuldade em ficar dentro dela.

Ao saírem do elevador no quinto andar, Violet parou. A parede que dava para a praia era toda de vidro.  Ela conseguia ver o mar, a areia branca, o céu azul e as gaivotas-de-lacre com as características listras laranjas em suas cabeças.

Os olhos de Violet permaneceram fixos na paisagem mesmo depois de se sentar. Ela nunca tinha visto nada igual. Todos os pratos servidos no restaurante eram frutos do mar do sudeste. Os pratos levavam pouco creme ou manteiga, e comê-los melhorou o humor de Violet.

Enquanto comiam, Winter falou um pouco sem jeito.

"...Você tinha razão.”

"O quê?" Perguntou ela.

"Sobre minha linhagem. Eles não eram feiticeiros, mas pesquisei sobre a linhagem Conic e encontrei alguns registros de trocas de corpos que aconteceram no passado. Mas nenhum registro explicava como ou por quê.”

"Entendo."

"E o contrato que você executou foi excelente. Eu a recompensarei."

Recompensar? Ela era sua esposa. Estavam casados há três anos mas ainda agiam como se fossem estranhos.

Violet ainda se sentia feliz por ele ter dito que o contrato era excelente. Ela pensou no que queria.

"Você ficaria comigo no mês que vem para o aniversário do seu pai?"

"Meu tempo é mais precioso do que isso. Diga-me algo que você queira, algo material."

Disse ele. 

"...Entendo."

Violet parou de falar e Winter ficou irritado.

"Odeio quando você faz isso. Se há algo que você quer dizer, apenas diga. Não fique calada."

"O que eu quero dizer..." Violet pensou por um instante. 

"Tem uma coisa. Uma pergunta."

"Fale."

"Se eu morresse, você viria ao meu funeral?"

Winter ergueu os olhos da comida. Aquela não era a pergunta que ele esperava. Ele franziu a testa. 

"O que isso significa?”

"Exatamente o que parece."

"Você disse: 'se eu morresse'."

Violet assentiu levemente. 

"Já pensei em morrer. Às vezes parece melhor do que viver assim." 

Winter falou em tom de deboche: 

"Não faça tanto alarde."

"Você acha que estou exagerando?"

"Olha. Quantas vezes você já apanhou na vida, se é que já apanhou? Já trabalhou para alguém? Já foi confinada, amarrada e arrastada? Não. Já passou fome por falta de dinheiro?"

Violet parou de falar.

A voz de Winter era sarcástica: 

"Ou isso é algum tipo de ameaça? Que você vai se matar?"

“...”

Ela achava que eles tinham muito o que conversar, mas, com o passar do tempo, ficou cada vez mais difícil encontrar palavras.

A conversa ficou arrastada. Violet fez outra pergunta perto do fim da refeição.

"Mesmo assim. Se eu morresse…”

“...”

“Então você me daria um dia do seu tempo?"

Para o funeral da esposa dele? Ele estava prestes a dizer para ela parar com o absurdo, mas as palavras ficaram presas em sua garganta ao imaginar como seria o funeral de Violet.

Ela não sabia por que ele estava trabalhando tanto?

Era para mostrar a ela que ele era melhor do que ela pensava. 

Era por isso que ele estava fazendo tudo aquilo. 

Tudo seria em vão se ela morresse.

Sua esposa era sempre a educada, e ele, o rude. Winter sempre sentia como se ela, a preciosa princesa, estivesse se rebaixando por estar com um outlander insignificante. Sentiu-se assim também no casamento.

O primeiro encontro deles foi no casamento. Quando Winter saiu da carruagem, ficou completamente sem palavras diante de Violet Lawrence.

Ela caminhou suavemente até ele e estendeu a mão para que ele a beijasse. Quando ele olhou naqueles olhos, teve vontade de fugir.

Ele beijou a mão dela mesmo assim, nunca deixou de pensar que ela provavelmente estava zombando dele com aquele gesto.

Ele havia se esforçado por dias para aperfeiçoar sua postura aristocrática ao caminhar, e usar aquelas roupas sufocantes lhe custou um esforço considerável. Mas para Violet, todas essas coisas eram tão naturais quanto respirar, e era evidente que ela não conseguia imaginar alguém incapaz delas. Ela não conseguia conceber um mundo onde tais costumes não fossem ensinados.

Ele não tinha nada que pudesse satisfazer aquela nobre dama, nem mesmo dinheiro.

Por isso, ele precisava ganhar dinheiro. Era a única coisa que ele era capaz de adquirir.

Winter não respondeu mais nada. A conversa terminou.

Winter a deixou após a refeição. Violet ficou parada por um tempo no saguão do restaurante.

Uma mulher usando um elegante chapéu azul-celeste de abas largas a chamou.

"Violet!"

Levantando a cabeça, ela viu sua prima e atriz mais famosa de Lacround, Ariella Lawrence. Violet sorriu. Fazia muito tempo que não a via.

"Faz muito tempo, Ariella. Ocupada ultimamente, não é?"

"Sim, muito. Você não está tão ocupada, está? Deveria vir à capital com mais frequência."

"Acho que vou.” Respondeu Violet.

Ariella suspirou.

"Tenho inveja. Eu também adoraria me casar cedo e passar meus dias arranjando flores ou algo assim. A vida nobre, sabe?"

"Entendo."

"Ah, é mesmo! Eu encontro o Lorde Winter com bastante frequência no Estádio Kaisel. Nos damos muito bem. Acho que é porque nós dois fomos obrigados a trabalhar e ganhar dinheiro desde jovens. Você não gosta de esportes tão bárbaros, gosta?"

"Não é isso. É só que eu não estou familiarizada com eles."

Violet teve vontade de acrescentar: "Você não foi obrigada a ganhar nada quando era pequena. Você simplesmente fugiu de casa dizendo que queria liberdade." Mas ela reprimiu o impulso. 

Ariella estreitou os olhos.

"Você sempre fala assim. Dá a impressão de que você é alguém superior. Não é à toa que Lorde Winter a acha frustrante."

"Ele disse isso mesmo?"

"Sim."

Violet sorriu amargamente.

Então, o marido dela realmente a acha frustante.

Ela não tinha sido tão relutante em falar três anos atrás. Três anos atrás, ela teria sido capaz de dar a Ariella uma resposta ácida, algo como: "O que me importa se você e meu marido se dão bem?"

É que ela teve que lidar com as críticas intermináveis, a solidão extrema, todos esses anos. Isso a fez simplesmente se retrair ainda mais.

Ariella se virou para a torre do relógio no centro da ilha. Ela deu um pulo.

"Ai, não! Vou me atrasar para a minha reserva. Até logo."

"Certo. Até logo."

Violet se despediu e correu para sua carruagem. Lá encontrou Lulu esperando por ela.

"Lulu, Ariella se hospeda no Hotel Conic com frequência?"  

“Hã?”

Lulu, percebendo algo tardiamente, fez uma careta.

Era como Violet disse. Ariella Lawrence tinha uma predileção especial pelo Hotel Conic, administrado por Winter. Ela sempre se hospedava em um Conic, independentemente de onde estivesse se apresentando, e o mesmo acontecia quando ela estava na capital.

Violet pareceu surpresa com a grande quantidade de vestidos que Lulu lhe trouxera naquela manhã. Isso significava que todos aqueles vestidos que Hayell comprara tinham ido para outra pessoa.

"Sim, ela fica aqui com frequência..."

Respondeu Lulu, cabisbaixa, e Violet apenas assentiu.

Winter nunca tinha realmente voltado para casa nos últimos três anos. Violet simplesmente pensou que era para recuperar os 24 milhões de laakne perdidos. Ela não imaginava que ele seria infiel.

Violet sempre se sentiu culpada por ser a causa da quase ruína de Winter e não deixou de apoiá-lo em seu coração, mesmo quando ele a magoava. Mas, considerando tudo, se ele a odiava tanto, seria estranho que ele não tivesse uma amante, não é?

Isso não importava mais para Violet.

Ela estava cansada de se sentir sozinha daquele jeito.

Sem energia para passear, Violet voltou para o hotel.

Sentou-se à janela do quarto e ficou olhando para fora.

Incomodava-a o fato de não ter morrido.

De alguma forma, ela conseguira se agarrar à vida nos últimos três anos, mas se o mesmo tipo de vida continuasse, ela não tinha motivos para continuar.

Ela ficou sentada ali, olhando para o nada, até o pôr do sol. Levantou a cabeça ao sentir o cheiro de café quente. Lulu tinha entrado com um café de aroma delicioso.

"Se você não estiver com fome, gostaria que eu lhe trouxesse uma sobremesa?"

"A vida não tem muito segredo. Ter a barriga cheia já ajuda bastante."

Violet assentiu. Lulu lhe entregou uma xícara de café quente.

"Fique com ela, mesmo que não queira beber. Ficou mais frio agora que o sol se pôs."

"Que quentinho."

Violet forçou um sorriso com os olhos marejados e levou a xícara ao rosto.

"Nossa, esse cheiro realmente te anima, não é?"

"Anima, né?"

"Sim."

Por ora, parecia que ela deveria apenas aproveitar o que tinha. Ela tomou um gole da xícara e falou num tom mais leve.

"Acho que vou me fartar no jantar. A comida do sudeste no almoço foi muito leve para mim."

"Que ótima ideia! Aquele cozinheiro teimoso já mandou um pescador pegar uma lagosta, então o prato principal já está decidido. Por favor, descanse um pouco. Voltarei mais tarde para ajudá-la a jantar."

"Obrigada", disse Violet, gentilmente.

Ela não estava com vontade de comer, mas não podia pular o jantar, não com o cozinheiro tão animado para servi-la.

Felizmente, o jantar estava excelente. Ela preferia não ter perdido. O bolo de carne que Lulu lhe trouxe, dizendo que ajudaria a recuperar suas energias, fez com que ela quisesse prolongar sua estadia no hotel.

Violet gostou tanto da comida que Tulin e Lulu ficaram por perto, querendo ouvir mais elogios sobre a culinária deles.

Era como Lulu havia dito.

Estar de barriga cheia realmente ajudou. E mais, ela encontrou energia para dizer o que realmente queria dizer. Ela não seria mais uma mulher frustrante.


tradução by CAMÉLIA

Comentários