(O Que Significa Ser Você) 

- by Lee Sora -

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Winter Blooming, pela primeira vez na vida, teve dificuldade para se levantar de manhã. Ele soube imediatamente que aquele corpo não era o seu.

"Droga, que diabos..

Ele se ergueu com dificuldade. Pelo ambiente e pela própria voz, percebeu que aquele era o corpo de sua esposa.

Estalou a língua e se acostumou com o quarto.

Winter já havia sido escravizado por alguns anões em uma maldita vila anã por um mês inteiro, e até sequestrado por uma feiticeira lunática que fazia experimentos com ele. Essa nova situação não o abalava nem um pouco. Seus inimigos eram incontáveis.

A corda do sino devia estar com defeito. Nenhuma criada apareceu, não importava quantas vezes ele puxasse. Winter estava impaciente. Levantou-se da cama e sentiu uma garrafa de champanhe vazia e um frasco de comprimidos aos seus pés. Ele sempre que pensara em sua esposa como uma princesa elegante, descobriu que ela não era tão diferente dele.

Abriu a porta e saiu, tentando encontrar alguém. Seu corpo tremia por inteiro.

"Que tipo de corpo de merda é esse?"

Winter praguejou, cambaleou e desabou no chão. Sua cabeça doía tanto que ele mal conseguia andar, mas seu corpo teimosamente pedia café e o obrigou a rastejar escada abaixo.

Ele estava no meio de negociações quando, de repente, se viu no corpo dela. Não se importava com o estado daquele corpo. Precisava voltar ao hotel e finalizar o contrato com aquele maldito idiota das Montanhas Vaidellin. Se sua esposa estivesse em seu corpo, não havia como prever o que ela faria. Ela fora uma princesa, mimada como tal. Não saberia o que fazer.

Ele descia as escadas com dificuldade quando esbarrou no médico da Casa Blooming, Rickman. Ele era o médico da casa antes mesmo de Winter se juntar a eles.

Rickman o ignorara nos primeiros tempos por ser um filho ilegítimo, e Winter retribuía o favor desde então. Agora, porém, ele estava feliz em ver alguém com credenciais médicas.

"Rickman! Que ótimo momento. Preciso da sua ajuda. Me examine."

"O quê? Tudo bem."

Rickman pareceu surpreso com a recepção incomum de Violet. Ele a seguiu até o quarto. Winter desabou sobre os lençóis, com a cabeça apoiada na cama, e disse em tom autoritário: 

"Estou com uma dor de cabeça terrível. Descubra imediatamente a causa."

"Como eu lhe disse ontem, não há nada de errado com você, Jovem Senhora."

"Claro que há. Meu corpo está um lixo."

"J-Jovem Senhora, você não deveria falar assim."

Rickman começou a examiná-la mesmo assim.

Depois que Violet desapareceu da festa sem sequer cumprimentar, o Duque Blooming e sua esposa (junto com seu herdeiro, Diev) ficaram furiosos. O que provavelmente significava que Violet queria uma saída definitiva da situação com um diagnóstico de doença. Pensou o médico. 

Rickman não fez o mínimo esforço em seu exame e resmungou.

"Até quando você vai continuar com essa farsa? Princesa ou não, esse absurdo não é... J-Jovem Senhora!"

Rickman parou de falar. Winter o agarrou pelo colarinho e rosnou em seu rosto.

"Eu já disse que estou doente.”

Ele cuspiu as palavras. 

"Quem diabos nomeou um lunático como você como médico, para que eu tenha que aturar essa palhaçada logo de manhã. Quem?"

O "Quem?" Ele acrescentou como um pensamento posterior, supondo que Violet provavelmente teria usado palavras semelhantes.

Se ele estivesse em seu estado normal, teria jogado o médico no chão. Com seu corpo fraco atual, porém, não havia chance disso acontecer. Winter reprimiu a raiva fervente por ser incapaz de vencer até mesmo aquele médico covarde.

"Você sabe que seu salário vem dos meus cofres, não é?"

“Não são seus cofres, são do Mestre Winter!"

"Somos um casal. O dinheiro pertence a nós dois."

Retrucou Winter. 

"Bem..."

"Então, a menos que você queira arranjar outro emprego, diga o que eu quero ouvir. Entendeu?"

Rickman estava furioso. Que ultraje! Uma mulher o agarrou pela colarinho! Ele o ajeitou assim que ela o soltou.

Winter fez um gesto para que ele o seguisse. Ele saiu do quarto de Violet e foi para o seu. Assim que entrou, seu criado favorito, Flip, estava varrendo o chão. Ele fez uma reverência.

"O que foi, Jovem Senhora?"

"Sim, você. Eu tenho negócios na capital..."

Winter cambaleou novamente, a dor de cabeça o dominando. Flip, surpreso, estendeu a mão para apoiá-lo. No último minuto, reconsiderou e recuou. Winter se apoiou na cama.

"Deixa pra lá, me traga um café. Bem quente."

Pediu Winter.

“Sim, Jovem Senhora..."

"E massageie meus pés."

"O-o quê?"

Os olhos de Flip se arregalaram, mas ele saiu do quarto para buscar o café que lhe haviam pedido. Rickman se contraiu ao longe ao ver Winter abrindo o cofre.

Ele era os olhos e ouvidos de Catherine Blooming enquanto estava hospedado na propriedade de Violet e Winter. Rickman vira o relacionamento do casal se deteriorar com o passar do tempo. E ver Violet abrir o cofre foi chocante.

Dinheiro era a própria vida para Winter. Winter era o tipo de homem que mataria por dinheiro e se orgulharia disso depois. O fato de um homem assim ter dado a senha do cofre para a esposa significava que ele confiava nela cegamente. A mudança de atitude de Violet e o fato de ela saber a senha do cofre eram novos fatos que precisavam ser levados em consideração.

Winter não se importou que Rickman visse. Tirou um maço de notas, enfiou-o no bolso de Rickman e se jogou de volta na cama. Falou com Rickman, que observava com os olhos arregalados, como se estivesse instruindo uma criança.

"Então, Rickman. O que eu disse antes?"

"Você me disse para falar apenas o que você queria ouvir, Jovem Senhora!"

"Preciso chegar à capital imediatamente. Faça o que for preciso. Se eu desmaiar no caminho, eu... não, meu marido... vai quebrar seu pescoço."

Winter pretendia demiti-lo de qualquer maneira assim que recuperasse o corpo, mas por agora precisava da ajuda daquele médico.

Ele mal havia dito algumas palavras raivosas e sua cabeça já girava. Felizmente, Flip voltou com café e açúcar. Winter colocou bastante açúcar no café e o tomou de uma vez. Rickman terminou seu diagnóstico e saiu para preparar um remédio.

Momentos depois, Flip voltou com uma bacia de água morna.

Winter sentou-se na beira da cama e apontou para os pés com o queixo. Flip, parecendo confuso, ajoelhou-se. Pegou os pezinhos brancos da Jovem Senhora nas mãos, mergulhou-os na água e começou a massageá-los lentamente.

Flip não massageou com força, e Winter disse irritado: 

"Você está ficando senil?"

"S-senhora? Ah... Se eu massagear com mais força, vai doer."

"Que diabos..."

Winter estava prestes a chutar a bacia para longe quando seus olhos se fixaram nas mãos de Flip.

Era uma visão muito estranha. 

Flip, vermelho até as orelhas, não conseguia levantar a cabeça. Temendo machucar sua mestra se massageasse com muita força, ele estava hesitante e com dificuldade até mesmo para segurar os pés direito. Era Winter naquele corpo, claro, mas Flip não sabia disso.

Winter baixou a voz.

"...Saia daqui. Nunca mais chegue perto de mim."

"S-Sim, Senhora!"

Flip respondeu em voz alta, um tom que Winter nunca tinha ouvido antes, e saiu correndo do quarto com a bacia de água.

Winter estalou a língua e bagunçou os cabelos, irritado. Parou. 

Virou-se para o espelho e notou que o cabelo dela tinha sido cortado na altura dos ombros. Olhou para o espelho e murmurou.

"...Finalmente cortou o cabelo, hein?"

Ele lembrou da conversa que tivera com Violet no inverno passado.

Os dias tinham ficado mais curtos e Winter ficara em casa por quatro dias inteiros, o que era raro. No dia anterior à sua partida para a capital, Violet lhe fizera uma pergunta durante o jantar.

"Meu cabelo está muito comprido?"

Winter olhou para ela, e Violet tocava o cabelo timidamente.

"Devo... cortar? Acho que seria uma mudança agradável."

"Faça como quiser."

Sua esposa tinha o costume de lhe fazer perguntas bobas como essa. O cabelo era dela. Sobre o que havia para perguntar a opinião dele? Winter não costumava perguntar a outras pessoas sobre essas coisas.

O sorriso gentil que surgira no rosto de Violet, o primeiro em muito tempo, desapareceu. E assim terminou a conversa. Ela deve ter mudado de ideia depois disso, porque não cortou o cabelo. Também não lhe fez mais nenhuma pergunta.

Winter se lembrou de como a expressão dela havia mudado naquele dia. Ela devia ter achado algo em sua resposta doloroso, mas ele não conseguia entender o quê. Ele deveria ter dito para ela não cortar o cabelo? Ou que ela deveria cortar? Ah, mulheres eram enigmas.

Uma criada trouxe o remédio e um pouco de água. Winter tomou o remédio e caiu num sono profundo. Ele dormiu por um bom tempo, e sua dor de cabeça praticamente desapareceu graças ao remédio. 

Uma batida na porta o acordou.

"Violet."

"Entre.”

Respondeu Winter com a voz sonolenta. Ele tinha ouvido a voz de Diev, seu irmão.

Diev tinha ido até Violet chateado. Quando Violet o deixou entrar em seu quarto por algum motivo, um sorriso voltou ao seu rosto.

"Ouvi dizer que você tem dormido muito. Rickman me disse que desta vez você não está fingindo.”

"Eu... estou doente. Muito."

“Você comeu?”

"Não consigo."

O sorriso de Diev ficou ainda mais largo.

Winter se perguntou se aquele era o mesmo meio-irmão que ele desprezava sempre que tinha a chance. O mesmo meio-irmão que era obrigado a bajulá-lo (contra a sua vontade) para conseguir dinheiro.

Winter achou aquele sorriso repugnante.

"Por favor, vá buscar uma bebida."

Diev caiu na gargalhada e saiu do quarto. Winter se recostou, pensando que Diev não traria nada. Diev logo voltou, porém, com uma taça de vinho com uma folha de hortelã boiando dentro.

"Nada de álcool. Beba um pouco de água.” 

Disse ele baixinho antes de sair do quarto.

Winter franziu a testa quando o irmão saiu. Diev e a esposa sempre foram tão próximos? Embora ele imaginasse que não teria como saber se algo tivesse acontecido entre eles, já que raramente voltava para casa enquanto tentava reconstruir sua empresa da beira da falência.

O interior de Winter fervilhava de raiva, mas os remédios estavam fazendo efeito e ele mal conseguia se manter de pé. Finalmente, depois de um longo sono, sentiu-se forte o suficiente para se levantar. 

Então, pegou um trem para a capital.

tradução by CAMÉLIA

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