(O Que Significa Ser Você) 

- by Lee Sora -

3


Ela não sentia nenhuma dor física, talvez devido à overdose maciça.


Quando Violet abriu os olhos novamente, estava deitada em uma cama tão macia que não sentia o próprio corpo. Um sorriso surgiu em seu rosto e ela o afundou no travesseiro.


Uma brisa suave entrou pela janela, roçando as cortinas e balançando seus cabelos.


Ela teria se matado três anos atrás se soubesse que a morte seria tão tranquila.


Nunca se sentira tão revigorada em toda a sua vida. A dor de cabeça que a atormentava havia desaparecido completamente, assim como o cansaço que a consumia.


"Estou tão feliz agora..."


Os olhos de Violet estavam se fechando lentamente quando o som da própria voz os abriu de repente.


Ela se sentou e levou as mãos ao pescoço. Olhou para as mãos.


Nem o pescoço nem as mãos eram seus. Eram as mãos do marido, que ela não tocava desde o casamento. Sua voz era a dele, baixa e raivosa. Violet passou as mãos pelo corpo saudável, fortalecido pelo trabalho físico e pelos esportes. Ela cobriu a boca com a mão.


Colocou os pés no chão e ficou surpresa com a sensação dos músculos fortes das pernas que a sustentavam.


"O que está acontecendo aqui?"


Ela se encarou no espelho de corpo inteiro do quarto. O homem refletido no espelho era Winter Blooming.


Um homem com mais de 1,90 m de altura, ombros largos e uma aparência bárbara, porém atraente. Winter Blooming tinha cabelos negros como azeviche, levemente cacheados nas pontas, e olhos cinzentos.


"Devo estar mesmo louca.” 


Murmurou Violet para si mesma. A porta se abriu com um estrondo e o secretário de Winter, Hayell, entrou.


"Senhor! Lowell chegou cedo! Depressa, vista-se!"


Ele segurava uma xícara de café em uma mão e um terno na outra. 


Hayell já estava de terno e as formalidades habituais que demonstrava aos outros membros da Casa Blooming haviam desaparecido completamente.


Hayell colocou uma camisa branca e calças sobre a cama.


"Pode vestir. E, por favor, use gravata desta vez? É um evento oficial."


"Claro... Não, quer dizer, tudo bem."


Hayell fez uma careta diante da resposta cortês vinda de Winter, depois assentiu como se tivesse entendido.


 "Ah, você está praticando etiqueta para a conferência de hoje, não é? Você estava bem impaciente ontem."


Violet pareceu confusa. 


"... Praticar? Por quê?" 


Perguntou, imitando a voz do marido.


"Por quê? Bem, para começar, você tem péssimos modos.”


Respondeu Hayell.


"Eu?"


"Está falando sério? Não temos tempo para isso! Você acordou muito tarde! Troque de roupa logo!”


Violet, atrapalhada, assentiu com a cabeça e correu para a cama.


Momentos depois, uma criada apareceu e serviu um café que ainda parecia estar fervendo em uma xícara sobre a mesa. Hayell pegou colheradas generosas de açúcar e despejou na xícara.


"Sobre os grãos de café das Montanhas Vaidellin, Lowell queria um aumento de preço de 30 rounds (10.000 rounds equivalem a 1 laakne) por grama. Ele é um maluco, não acha?"


"Hayell. Você poderia sair um pouco? Preciso me trocar."


Os olhos de Hayell se arregalaram.


"O que deu em você hoje de manhã?"


Violet estava acostumada a ter outras pessoas a ajudando a se trocar, é claro, mas sempre eram criadas que a ajudavam.


Se sentindo muito desconfortável por se trocar na presença de Hayell, explicou a ele.


"Ás vezes acontece. Vire-se, por favor?"


 "Por que você está falando tão gentil de repente... e por que não está tomando seu café?"


Hayell, surpreso, virou-se para longe dela e começou seu briefing.


Violet tomou um gole do café e quase o cuspiu. Estava extremamente forte e todo aquele açúcar ardia em sua língua. Além disso, estava tão quente que ela se perguntou se a empregada havia jogado pedrinhas aquecidas diretamente na xícara.


Ela não conseguiu tomar mais do que um gole. Violet desistiu de beber mais e, hesitante, vestiu sua camisa branca e calça preta. Em seguida, amarrou a gravata cinza no pescoço. Preocupada, olhou para Havell.


"Hayell, me perdoe, mas..."


"É outra ressaca? Você não vai poder ir à conferência?"


Winter só se desculpa quando está de ressaca. Violet ergueu a gravata em direção a Hayell.


"Dê um nó nela para mim, por favor."


"Você está me punindo por alguma coisa, não é? Não sei o que fiz de errado, mas preferiria que você me xingasse como sempre."


Hayell, parecendo perplexo, caminhou até ela e habilmente deu um nó e ajeitou a gravata. Violet se virou, achando estranho ter um homem que não fosse seu marido tão perto. Quando Hayell terminou, ela calçou os sapatos.


"Então... Uma reunião agora mesmo?"


"Sim. Senhor, mesmo que ele tente ao máximo irritá-lo... Seja o que for que faça, não se irrite e não vire a mesa."


Winter deve gostar de virar mesas.


 Ela estava percebendo rapidamente que a imagem que tinha do marido, a de um homem frio, sereno e sem coração, não era totalmente precisa. Embora, se toda aquela provação fosse fruto de sua loucura, ela pudesse estar enganada.


"Agora, se você terminou, vamos indo!"


Hayell empurrou Violet por trás. Violet começou a andar, surpresa com a força do corpo robusto de Winter. O empurrão que Hayell lhe dera mal a afetara.


***


Sem tempo de entender a situação, Violet se viu sentada diante do contrato que Winter ainda não havia finalizado.


A mesa estava coberta de documentos.


O que eu faço?


Violet tinha certeza de que finalmente havia perdido a cabeça e que aquilo era algum tipo de delírio psicótico. Mesmo assim, relutava em assinar um contrato sobre o qual não sabia muito. Culpando sua personalidade, que não lhe permitia ficar tranquila nem mesmo em meio a um delírio, ela leu o contrato.


Levou um bom tempo para chegar ao fim. Lowell, das Montanhas Vaidellin, estava sentado à sua frente. Ele falou.


"Você estava gritando a plenos pulmões ontem. Por que está tão quieto de repente?" 


"Eu ultrapassei os limites ontem. Peço desculpas."


De acordo com o relatório, Lowell era um lorde com uma mentalidade extremamente elitista e dava muita importância à etiqueta.


A tentativa de Violet de ser mais educada do que o habitual para Winter deve ter irritado Lowell. Ele falou em tom de desagrado.


"O que você está tentando fazer aqui? O quê, depois de ter sido tão rude ontem, está tentando ser educado hoje? Isso é algum tipo de plano?"


"Não, na verdade..."


"Veja todos esses números aqui."


Lowell aumentou cada número do contrato em 30.


"Não posso vender os grãos de Vaidellin a menos que você os compre a esse preço."


O café Vaidellin era um dos melhores. Violet experimentava um pouco de vez em quando no castelo real. Ela nunca soube que o café era tão caro. Como nunca havia negociado nada na vida, Violet teve dificuldade em encontrar uma resposta.


"O contrato já está finalizado... e se você aumentar os preços em 30 rounds, isso dificultará muito as coisas para nós financeiramente."


Lowell respondeu irritado à sua resposta cautelosa.


"Você não me engana. Sua rede de hotéis está prosperando atualmente. Me perdoe por não acreditar na sua afirmação."


Ela ouvira dizer que seu marido havia falido completamente depois de se casar com ela. Ele devia ter recuperado parte de sua fortuna.


Ou talvez eu esteja apenas ouvindo o que quero ouvir. Afinal, tudo isso é um delírio da minha cabeça.


Violet pensou consigo mesma.


Ela sabia que sentia muita culpa por tudo o que Winter havia passado. Por isso, ela sempre o recebia com um sorriso acolhedor quando ele chegava em casa, não importava quanto tempo durassem suas viagens. Enquanto Violet continuava com seus pensamentos, Lowell falou.


"Com esses preços, as crianças Vaidellin não podem ser pagas adequadamente."


"Crianças?"


"Claro. Elas colhem os grãos."


Meu Deus, crianças estavam sendo forçadas a trabalhar!


Violet sabia que precisava garantir que as crianças fossem pagas. Ela olhou para o contrato e pegou seu selo.


"Nesse caso, se as coisas forem como você diz..."


Ela fez menção de selar o contrato. Hayell empalideceu, correu até ela e a agarrou pelo braço.


"S-senhor! O álcool ainda não deve ter saído do seu organismo!"


Hayell a puxou da cadeira.


Violet o seguiu docilmente para longe da mesa, e Hayell a repreendeu em voz baixa.


"Você ainda está bêbado? O que está acontecendo com você?!"


"As crianças... crianças colhem esses grãos..."


"Ele está tentando te manipular. Ele sabe que você foi tratado como escravo quando criança. E você sabe melhor do que ninguém que, mesmo que sejam realmente crianças que colhem esses grãos, o dinheiro vai parar no bolso de Lowell de qualquer maneira... Por que eu tenho que explicar essas coisas? Você sabe de tudo isso! Quanto você bebeu ontem à noite?"


 Hayell parecia certo de que a bebida ainda não havia saído completamente do organismo do seu chefe.


Violet, perplexa, perguntou: 


"Como eu normalmente teria reagido? Se... se eu não estivesse… bêbado ainda."


"Já vi pessoas fazerem coisas estranhas bêbadas, mas isso... Você teria virado a mesa no momento em que ele mencionasse 30 rounds Eu teria que intervir, e a reunião provavelmente teria sido adiada."


Então ela tinha que virar a mesa para agir como Winter costumava fazer. Mas a mesa era de mármore, no entanto. Mesas de mármore podiam ser viradas com tanta facilidade?


Violet ponderou a pergunta e caminhou até a mesa. Para sua surpresa, a mesa pesada se moveu quando ela a levantou.


Violet ficou chocada com a força nos braços de Winter.


Ela olhou para Lowell, que havia se encolhido de medo. Violet o encarou por um breve instante. Ela pegou os documentos que haviam escorregado da mesa. Então, sentou-se e riscou os números que Lowell havia escrito no contrato.


"Vamos começar de novo. Do começo."


"O que você quer dizer?"


Perguntou Lowell, tremendo.


"Vamos conversar. Vamos sentar aqui e conversar até que ambos estejamos satisfeitos com os termos."


Era o jeito de Winter Blooming intimidar e virar as coisas de cabeça para baixo.


Contudo, a pessoa sentada ali era Violet Lawrence, e a persistência era o seu forte. Ela tivera que ser persistente todos os dias, comparecendo àquelas festas como um fantasma e aceitando em silêncio as críticas que as pessoas lhe lançavam.


Violet espalhou os documentos sobre a mesa.


"Vou lê-los desde o início.”


Disse ela.


"Lê-los não mudará uma palavra."


"Vou lê-los repetidamente até encontrar uma resposta, ou até que um de nós se canse.”


Ela não se importava se aquilo era um sonho ou fruto de suas ilusões. Violet tinha um forte senso de responsabilidade e faria o possível para cumprir o contrato.


Lowell não conseguiu esconder sua apreensão quando Winter olhou diretamente em seus olhos e começou a examinar os termos do contrato.


Ele nunca tinha visto Winter tão calmo e arrogante. A negociação deveria ter terminado com Winter virando a mesa novamente. Lowell começou a procurar maneiras de provocá-lo.


"Ouvi dizer que os charutos de Lacround são famosos."


Disse Lowell, insistindo.


Hayell engasgou involuntariamente e cobriu a boca.


Era como ele havia dito. Os charutos de Lacround eram famosos, mas apenas a aristocracia os apreciava. Winter certa vez cogitou aprender a fumar charutos para poder conversar melhor com os aristocratas, mas as inúmeras regras mesquinhas sobre fumar logo o dissuadiram. Desde então, ele não demonstrara o menor interesse por charutos.


Lowell falou.


“Eu gostaria de experimentar alguns, se não se importar.”


“Com prazer compartilharei alguns com você.” 


Respondeu Violet.


“O quê?! Por que você concordou com isso?!”


Hayell engoliu em seco. Quase gritou. Se Lowell começasse a fazer comentários sarcásticos sobre os charutos, Winter se enfureceria novamente, e Lowell sairia com o melhor negócio.


Este contrato era para uma enorme quantidade de grãos de café que seriam fornecidos a todos os seus hotéis. Uma pequena mudança numérica significava uma enorme diferença na receita final.


Winter havia escrito algo em um bilhete e o passou para Hayell entre o indicador e o dedo médio.


Hayell examinou o bilhete com muito mais atenção do que o necessário. Estava confuso com o seu significado e perplexo com a caligrafia desconhecida. Como Hayell não se mexeu, Winter perguntou: 


"Prefere que eu os compre?"


"N-não! Já volto, senhor!"


Hayell percebeu que a palavra que o deixara perplexo devia ser a marca de um charuto. Apressou-se a sair. Comprou os charutos e os utensílios mencionados no bilhete numa loja próxima e colocou-os sobre a mesa.


Winter retirou um charuto belicoso da caixa e cutucou-o com o dedo.


Ele deveria fazer isso? É um charuto caro.


Hayell não entendia muito de charutos e estava nervoso. Winter, depois de verificar se o charuto não tinha defeitos, entregou-o a Lowell.


"Era o charuto preferido da Casa Real antigamente. Não sei se o senhor vai gostar."


 Lowell, atordoado, pegou o charuto.


Winter pegou outro para si, cortou a ponta e acendeu. Nem mesmo Lowell, que o desprezava por ser de posição inferior, conseguiu encontrar defeito em sua impecável etiqueta ao fumar. Era como se ele tivesse aprendido isso desde jovem.


Lowell não se esqueceu de seu objetivo. Estendeu o charuto e tentou algo mais forte.


"Gostaria que meu subordinado acendesse para mim."


Hayell recuou da mesa imediatamente. Tinha certeza de que aquela mesa acabaria de cabeça para baixo desta vez. Winter, no entanto, apenas pareceu incerto sobre o que Lowell queria dizer.


Violet Lawrence ocupava o corpo dele, afinal. Mesmo que a Casa Real não existisse mais e ela tivesse vivido em desgraça nos últimos três anos, mesmo que o título "princesa" a irritasse, ela nunca fora chamada de subordinada por ninguém.


Violet pensou por um instante.


"Sim, suponho que sou definitivamente mais jovem que você."


"Não, eu não quis dizer-"


"Eu não sabia que você teria dificuldade para acendê-lo. Você deve ser completamente novo nisso. Eu deveria ter explicado melhor."


Violet não estava zombando dele. Ela realmente pensou que o termo "subordinado" se referia à sua idade e se sentiu culpada por Lowell, que aparentemente lhe pedira para acender o charuto porque não estava familiarizado com ele.


Lowell interpretou isso como um insulto e seu rosto ficou vermelho instantaneamente. Violet achou que ele havia ficado vermelho de vergonha e decidiu fingir que não notou.


"A reunião de hoje vai demorar um pouco, já que tenho várias coisas para você experimentar."


Hayell, finalmente esboçando um sorriso, ergueu os vários charutos que Winter lhe havia pedido para comprar.


"É verdade, são muitos."


Foi a vez de Lowell empalidecer.


Fumar todos aqueles charutos mataria pelo menos um deles por overdose de nicotina. E Lowell sabia instintivamente que acabaria levando a pior.


***


Lowell fora obrigado a ficar sentado por 47 horas seguidas.


Finalmente, cedeu e gritou para Violet fazer como quisesse antes de ir para o quarto. Violet também saiu da sala de conferências.


Bitucas de charuto e garrafas de vinho vazias estavam espalhadas pela mesa.


Violet sentiu-se mal por ter sobrecarregado o corpo de Winter dessa maneira, mas imaginou que ele provavelmente gostaria que o contrato tivesse corrido conforme o planejado, afinal, ele amava tanto dinheiro que não podia se dar ao luxo de perder um único dia com a esposa.


Violet entregou o contrato com o selo de Lowell a Hayell. Todos os termos eram favoráveis à Conic, a empresa de Winter.


Hayell parecia completamente perplexo.


"O que aconteceu com você?"


"Desculpe, mas não faço ideia do que você está falando."


Violet já estava meio adormecida, depois de beber e fumar por mais de 47 horas seguidas. Ela foi direto para o quarto.


Hayell a seguiu, mas ela estava cansada demais para se importar. Assim que Hayell fechou as persianas e o quarto ficou um pouco mais escuro, Violet adormeceu com uma enorme sensação de satisfação. 


Se era assim que se sentia enlouquecendo, ela aguentaria um pouco mais de loucura.


tradução by CAMÉLIA

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