(O Que Significa Ser Você) 

- by Lee Sora -

26


O tempo deles na cama não foi muito diferente do habitual. Eles se mantiveram o mais quietos possível e não fizeram muito barulho.


Mas para Winter, aquela noite foi muitas vezes mais difícil do que qualquer outra.


Ele teria preferido passar uma de suas noites habituais.


Depois que a beijou, havia uma expressão voluptuosa no rosto de Violet que ele nunca tinha visto antes. Ele sentiu sua razão sendo despedaçada como uma folha de papel fino.


E aqueles malditos sinos fantasmas continuavam tocando em seus ouvidos por algum motivo. Ele não conseguia xingar com ela deitada bem na frente dele e isso estava o enlouquecendo.


Winter teve que tomar três ou quatro banhos frios para se acalmar antes de conseguir dormir, e levemente.


Ele até acordou cedo de manhã. O sol nasceu enquanto ele olhava para o rosto de Violet.


Ele notou que Hayell estava lá fora, no terraço. Ele deve ter percebido que Violet não tinha saído do quarto de Winter e escolheu aparecer no terraço.


Winter se juntou a ele e Hayell lhe entregou café. Engolindo-o para espantar o cansaço, Winter disse: 


"Eu pensei nisso. Sobre ter um bebê. Até agora, só investigamos mestiços em Lacround, certo?"


"Sim."


"Faça uma pesquisa na região onde os Conics viviam originalmente. Deve haver alguma informação lá."


"Você não está me dizendo para atravessar para um continente completamente diferente e visitar a região de Alika, está? Sabe, eu também tenho..."


"Esposa ou filhos? Você nem é casado."


"...preciso de tempo para tornar essas coisas realidade. De que adianta ter uma boa casa se eu não tenho tempo para passar nela?"


"Eu te dou dinheiro suficiente para comprar uma boa casa. Então mande alguém para investigar."


Repreendeu Winter.


"Eu farei isso.”


Disse Hayell, aliviado por não ter que ir pessoalmente.


Depois de apresentar alguns relatórios, Hayell saiu. Violet entrou pela porta de vidro do quarto.


"Dormiu bem, Winter?"


"De jeito nenhum."


"Eu dormi muito bem."


"Viu como somos diferentes?"


Winter resmungou. Ele estava começando a gostar de dormir com ela, mesmo da maneira truncada como estavam fazendo agora.


Investigar mais a fundo provavelmente não traria nenhuma informação útil, mas ele queria cobrir todas as possibilidades. Ele não queria que Violet tivesse motivos para deixá-lo. Se pudesse, teria feito uma criança aparecer de alguma forma e dado a ela.


Violet sentou-se em uma cadeira, com dificuldade para se levantar. Winter perguntou: 


"Por favor, me ajude a escolher algumas roupas para usar no Monastério de Cantus enquanto você está sentada."


"Ótima ideia."


Alguns momentos depois, um servo trouxe a Winter as roupas que ele planejava usar naquele dia. Violet alternava o olhar entre o convite e as roupas dele.


"Você não tem uma gravata borboleta branca?"


"Eu não tenho uma branca. Por quê?"


"O convite pede traje formal básico. Você precisará de uma gravata borboleta branca."


"Eu não posso usar outra cor?"


"Em Lacround, 'traje formal básico' significa camisa branca e gravata borboleta branca para homens." 


Até mesmo sua roupa estava errada. Violet continuou: 


"Você levará um lenço azul?"


"Não me importo. Há alguma cor específica que eles queiram para ele também?"


"Não exatamente, mas acho que seria melhor levar um de uma cor da Casa Blooming."


"Uma cor da casa? De todas as coisas aleatórias…"


Murmurou Winter. Violet pareceu surpresa. Winter franziu a testa.


"Não faça essa cara. Eu nunca tive a chance de aprender."


Ela não estava sendo desdenhosa ou chocada com a ignorância dele. Ela estava surpresa que os Bloomings nem sequer tivessem o ensinado o básico que todos precisavam saber para sobreviver na alta sociedade.


As pessoas da capital eram um pouco exageradas, mas em Lacround, geralmente, considerava constrangedor se gabar de algo em público.


Eles se contradiziam, no entanto, quando exibiam sutilmente sua superioridade ou facção com certas joias ou cores.


Violet falou. 


"Está tudo bem, comprei um lenço recentemente. Ainda bem que comprei."


Violet trouxe a caixa que continha o relógio e removeu o lenço cinza-escuro que estava no fundo. 


"As pessoas da Casa Lawrence preferem cinza-escuro."


"Não posso usar essa cor, posso?"


"Você é meu marido, então está tudo bem. A menos que você se oponha, é claro."


"Paguei toda a minha fortuna para comprar um título. Se eu puder usar a mesma cor da realeza, é claro que aproveitarei a oportunidade. Mas por que você comprou tantas coisas?"


"Apenas um relógio e dois lenços. E tenho quase certeza de que você não é exatamente a pessoa certa para me dizer isso."


Winter assentiu em concordância. 


"Isso é o suficiente para me dizer que é uma coisa muito boa você estar trocando de corpos comigo."


"Já que estamos nisso... Não poderíamos fazer um dia antes para você poder vir ao chá?"


Catherine estava organizando um chá neste sábado, mesmo que Winter tivesse parado de lhe dar dinheiro. O evento beneficente do Mosteiro de Cantus seria no dia seguinte.


Winter pensou por um momento. Ela havia dito que ele entenderia por que ela só usava preto se ele fosse.


"Provavelmente vou causar problemas."


"Tudo bem."


"Tudo bem, mas, por favor, faça alguma coisa acontecer no mosteiro."


"Farei o meu melhor."


Violet respondeu com calma exterior. Ela sentia uma mistura complexa de emoções por dentro.


Ele notaria pelo menos um pouco o quanto ela havia sofrido naqueles chás? E se notasse, o que pensaria?


Pensando em todas essas coisas, ela dobrou o lenço em um quadrado e o colocou no bolso do paletó dele.


"Agora, este é o traje formal básico."


"Droga, por que essa pretensão aristocrática é tão complicada?"


"Provavelmente porque pessoas ricas como você ameaçam a autoridade deles."


"O quê?" 


Winter franziu a testa.


Violet continuou baixinho: 


"Na época dos nossos pais, títulos eram tudo. Mas hoje em dia o dinheiro está começando a importar mais. Então os nobres criam essas... pretensões aristocráticas para que pessoas que têm dinheiro, mas não têm um título, não possam entrar para a alta sociedade."


Violet observou a reação de Winter. Ele pareceu atordoado por um momento antes de abanar o rosto de forma ridícula.


"O quê? Você disse pretensões aristocráticas? Que grosseria da sua parte."


Violet caiu na gargalhada com a provocação dele.


***


Na manhã de sábado, Violet se preparou para o chá e tirou um pequeno frasco de remédio da gaveta.


A garrafa continha veneno extraído dos trevos do sul que ela encontrara enquanto cuidava do jardim. Ela aprendera que essa quantidade seria suficiente para acabar com a vida de uma pessoa em minutos após a ingestão.


Ela encarou a garrafa. 


"...Isso é um pouco assustador."


Ela pensou em Winter, que continuava fazendo piadas travessas.


Ela desejara o amor dele por três anos. Sentira falta dele enquanto ele estava fora e se sentira triste pelo fato de que, mesmo quando ele estava perto, eles não eram próximos.


Em certo ponto, ela decidiu que tinha terminado com ele, que não havia mais nenhum vestígio de sentimento em seu coração por ele, como uma terra varrida por uma tempestade.


Mas agora ele era o motivo pelo qual engolir aquele veneno parecia assustador.


Violet sentou-se na cama, abriu a garrafa e a engoliu. Ela caiu para trás na cama.


Se eu morrer agora, ele virá ao meu funeral?


Violet se perguntou sobre isso mais do que nunca, mesmo no dia em que tentou suicídio pela primeira vez. Ele viria ao funeral dela?


Ela ainda o queria.


As luzes se apagaram por um breve momento. Quando ela abriu os olhos, estava sentada em uma carruagem com Hayell sentado à sua frente.


"Senhor, o senhor não está se sentindo bem?"


"Está tudo bem. Para onde estamos indo agora?"


"Ah, estamos indo para o chá que a patroa está dando. Levará mais ou menos duas horas, Jovem Senhora."


Hayell percebeu pelo tom gentil de voz e pela pergunta dela quem era.


Violet olhou pela janela.


De repente, ela ficou preocupada que ele virasse uma mesa ou algo assim com seu temperamento explosivo.


O corpo saudável de Winter se sentia confortável e estranho ao mesmo tempo. Esta carruagem havia sido construída pensando na alta estatura de Winter, e ainda assim o teto parecia um pouco baixo demais.


Violet estendeu a mão para abrir a janela quando viu o relógio em seu pulso.


"...Ele ainda está usando mesmo."


Hayell estava ocupado olhando alguns documentos. Ele respondeu: 


"Ele realmente gosta desse relógio. É estranho, ele geralmente não é do tipo que usa qualquer coisa por muito tempo."


"Estou aliviada." 


Violet sentiu um leve sorriso aparecer em seus lábios.


Ela continuou olhando para o relógio por um tempo depois disso.


***


Winter abriu os olhos e se viu na cama, no corpo de sua esposa. Ele franziu a testa ao sentir o tremor.


"Droga, não a vi saudável um único dia sequer. O novo médico não deve ser bom."


Ele se levantou irritado e olhou no espelho.


Violet estava usando um vestido amarelo escuro que combinava com o fim do verão.


Desta vez, ela estava usando algo mais brilhante do que o normal.


Winter parou um momento para observar o rosto de sua esposa de vários ângulos diferentes antes de começar a examinar seus arredores.


Talvez houvesse uma pista de como Violet fez isso. Era seu sangue Conic que tornava isso possível, mas ele não sabia como – que ironia!


Ele olhou ao redor e encontrou um frasco de remédio no chão perto da cama.


Estava escrito "analgésico".


"É para a menstruação dela?" 


Winter murmurou. Jen entrou e arrancou o frasco dele. Ela percebeu que estava vazio e começou a se preocupar com ela.


"Jovem Senhora! Você tomou todos os analgésicos de novo? Eu te disse que tomar muitos deles não faz bem para o seu corpo!"


“...”


Isso foi o suficiente para fazê-lo jogar algo do outro lado do quarto, mas ele sabia que Jen tinha boas intenções.


tradução by CAMÉLIA

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