(O Que Significa Ser Você) 

- by Lee Sora -

12


Winter a levou direto para o Hotel Conic.


Violet não tinha forças para resistir. Winter a deitou na cama como se ela fosse uma paciente fugitiva.


"Não estou tão doente assim."


"Eu sei que não está."


Violet suspirou. Winter colocou a mão acima da cabeça dela e a olhou com uma expressão séria.


"Então. Dói tanto assim mesmo antes de começar?"


"Sim."


"Quanto dói quando começa?"


"Cerca do dobro."


O rosto de Winter se fechou. Ele murmurou confuso: 


"O dobro disso, é?"


"Os meus são mais severos do que o habitual."


"Bem, tudo bem. Isso serve por agora. Você não tem amigos?"


"...Por que pergunta?"


"Eu fui à festa ontem à noite e ninguém quis falar comigo."


"Ah..."


Violet percebeu que Winter havia passado pelo que ela passava em todas as festas e deu um sorriso fraco. Winter parecia ter dificuldade em entender.


"Minha mãe dá tantas festas. Como você não tem um único amigo?"


Violet ergueu o queixo e olhou para Winter por um instante.


Era verdade que os nobres Wohossen evitavam Violet porque os Bloomings a odiavam, mas havia um motivo maior.


Violet não sabia quanta riqueza Winter realmente possuía, mas sabia que era ele quem sustentava a casa com seu dinheiro.


O fato de ele não ter aparecido com a esposa nenhuma vez nos últimos três anos só podia ser interpretado como um forte ressentimento contra ela. E os nobres tinham muito a perder para se dar bem com alguém que havia desagradado Winter Blooming.


Violet não tinha intenção de criticar o marido por isso. Levou três anos para ela aceitar que ele a ressentia. Era só isso.


Explicar as coisas agora não mudaria a opinião dele nem o faria acompanhá-la a essas festas. Violet decidiu que não teria mais expectativas em relação ao marido. Estava cansada demais para enfrentar mais rejeições.


Ela mudou de assunto.


"Mesmo assim, encontrei uma amiga no caminho para cá."


"Quem?"


"A Du-"


Violet se conteve antes de mencionar o Ducado de Doss.


Se ela não conseguisse o divórcio, afinal, talvez tivesse que se refugiar lá. Provavelmente era melhor não mencionar.


Ela balançou a cabeça. 


"Não é nada."


"O que você ia dizer?"


"Você me disse que não tinha tempo nem para conversar, lembra? Eu sei que você é ocupado, então não vou reclamar mais. Me desculpe por todo o transtorno que causei a você."


Violet não disse mais nada.


Agora que a conversa estava praticamente encerrada, era comum que o ocupado Winter simplesmente parasse por aí. Mas hoje ele se sentou na beirada da cama.


Ele fez uma careta, talvez pensando no que havia acontecido antes.


"E se você encontrar mais algum policial como aquele enquanto estiver no meu corpo, simplesmente chute a bunda dele. Eu cuido das consequências."


Violet tinha suas dúvidas sobre como exatamente ele "cuidaria das coisas". Provavelmente não era exatamente legal. Ela estreitou os olhos. Winter ergueu levemente o queixo dela com um dedo.


"Nunca vi você fazer uma cara assim."


"...Que cara?"


"Bem, você parece bem brava, na verdade."


Os olhos de Violet se arregalaram e seus lábios se entreabriram. Winter retirou a mão e se virou.


"Devo ter me acostumado a estar no seu corpo. Ah, e notei que você precisa trocar de roupa íntima para colocar um vestido. Estou certo?"


"...Por que você está mencionando isso agora?"


"Você não tem o direito de reclamar. Você fugiu com o meu corpo."


O tom malicioso dele fez as orelhas dela corarem. Violet olhou para a porta.


"Você está ocupado, não é?"


"Ah, eu estou saindo. Não precisa me expulsar.”


Repreendeu Winter. Ele acenou de forma infantil e desanimada e saiu do quarto.


Violet, inconscientemente, puxou os lençóis até o queixo. Ela suspirou.


Quão difícil tinha sido para ele passar um tempo em seu corpo, a ponto de esse homem ocupado estar tirando um tempo para colocá-la na cama?


"Será que eu deveria começar a me exercitar...?" 


Violet suspirou.


Winter voltou para o quarto e começou a examinar o próprio corpo, que Violet havia usado de forma tão imperdoável.


Winter era um homem organizado. Não acompanhava exatamente as últimas tendências da moda, mas sempre fazia a barba. Sempre usava roupas feitas sob medida para o seu corpo e dedicava um tempo para ajeitar o cabelo.


Ele sabia que era bonito. Sua aparência era uma vantagem para ele, que tinha que fazer qualquer coisa para juntar dinheiro.


Pronto para trabalhar, Winter saiu do quarto. Normalmente, ele teria ido direto para o trabalho, mas hoje Violet o preocupava bastante.


As cólicas menstruais, uma experiência nova para ele, tinham sido terríveis. Quase o enlouqueceram. Uma vontade de jogar coisas e gritar o dominou.


Ele não fazia ideia de como sua esposa conseguia viver com tanta dor.


Estava prestes a sair quando se virou, irritado.


"Como se eu já não estivesse ocupado o suficiente."


Pediu a Lulu que abrisse a porta do quarto. Violet estava dormindo, os remédios já haviam feito efeito.


Winter ajoelhou-se ao lado da cama e olhou para o rosto dela.


"Violet." 


Ela parecia estar em um sono profundo. Winter continuou:


"Não fique doente." 


Afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, colocando-a atrás da orelha.


"E nem pense em sair da minha casa. Fique aqui comigo."


Continuou a encará-la por um tempo. Levantou-se. Sentindo-se um pouco tolo, coçou a nuca e disse, irritado: 


"Que estranho. Acho difícil ir trabalhar depois de olhar para o seu rosto."


Ao sair, Hayell o esperava ao lado da carruagem.


"O que o atrasou tanto, senhor?"


"Vamos logo."


Winter se jogou no banco da carruagem e Hayell lhe entregou um convite.


"Eles estão organizando outro evento beneficente este ano em Cantus."


Cantus era um mosteiro localizado na região centro-sul de Lacround.


Os monges de Cantus realizavam uma pequena festa beneficente todos os anos e presenteavam os doadores com vinho de produção própria como agradecimento. Desde que provou aquele vinho, Winter se interessou muito pelo vinho de Cantus. Seu objetivo final era vender esse vinho exclusivamente em seu novo hotel de luxo, atualmente em construção na capital.


No entanto, era extremamente difícil para Winter conseguir aquele vinho.


O problema era que Winter vivia há muito tempo sem a necessidade de decoros ou regras de etiqueta. A maioria dos monges de Cantus era de sangue real. Eles eram exigentes com seus convidados e necessitavam de um alto nível de familiaridade com convenções e formalidades. Hayell falou em voz baixa.


"Sabe, senhor, se a jovem senhora... Se... ela souber como realizar a troca de corpos..."


"...Quer dizer que eu poderia pedir a ela para ir no meu lugar?"


"Você também já pensou nisso, não é?"


"Já, sim." 


Winter pensou por um momento. 


"Nunca fui a uma festa sequer com ela. Acha que ela faria algo assim por mim? Ela até anda falando em divórcio."


"O senhor tem razão..."


"Mande a carruagem andar."


Winter gesticulou com o queixo. Logo mergulhou em pensamentos profundos, considerando o que Hayell havia dito.


Era seu sangue Conic que tornava essas trocas de corpos possíveis. No entanto, apenas Violet parecia saber como ativá-las.


Como ela faz isso?


Ele começou a repassar os eventos passados, começando por quando descobriram que seus corpos haviam sido trocados.


***


"Ugh, eu não quero ir para casa.” 


Disse Violet enquanto se espreguiçava ao acordar.


Ela olhou para a janela, onde um raio de sol alegre brilhava. Ela se lembrou de Ash e Lady Catherine a empurrando para dentro do armário.


Pelo que ouvira, Winter havia saído da festa sem nem se despedir para procurá-la. O que significava que haveria consequências.


Violet balançou a cabeça, determinada a não sentir medo.


Ela se endireitou e encontrou uma verdadeira torre de chocolates sobre a mesa. Inclinou a cabeça, confusa. Apertou o vestido e caminhou até lá. Pegou um chocolate redondo daquela elaborada e alta construção.


"...O que é isso?" 


Violet estava prestes a ficar apreensiva quando Lulu entrou.


"A senhora está acordada, Senhora? Dormiu o dia todo ontem. O remédio devia ser forte."


Violet se virou e encontrou um bolo nas mãos de Lulu. 


"O que é tudo isso?"


"Hayell deixou um dinheiro com o chef para fazer sobremesa. Não sei quanto, mas aquele maluco fez uma montanha de doces. Quem vai comer tudo isso? Ainda sobrou bastante.”


"Então não é só isso?"


"Claro que não! O cozinheiro insistiu em jogar fora qualquer pedaço que estivesse minimamente amassado ou com um entalhe, então os funcionários do hotel comeram tudo no café da manhã.”


Resmungou Lulu. 


Violet pensou que provavelmente não conseguiria nem arranhar a torre de chocolate e o bolo. Ela precisava de alguém para compartilhar. Sentou-se ao lado da mesa.


"Gostaria de mandar um telegrama. Secretamente."


"Secretamente? Para quê, Senhora?"


"Bem... ela fugiu de casa e não pode deixar ninguém saber."


"Uma amiga sua fugiu de casa? Ah, que encrenqueira!"


Disse Lulu, rindo.


tradução by CAMÉLIA

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