(Meu Querido Opressor)
- by Seo Sahee -
3
“Se o que você disse é verdade, e se você ainda vive em segurança graças a ser minha esposa, então não há razão para você querer se separar. Continuar insistindo nisso só faz parecer que você tem outros planos.”
“Não, isso não é verdade. Eu apenas não quero mais viver com você.”
“Por quê? Você me odeia agora que sabe que eu te enganei?”
“Eu não te odeio, Heiner.”
Os olhos de Heiner se contraíram brevemente ao ouvir as palavras de Annette. Ele fez um pequeno movimento com os lábios, como se quisesse dizer algo.
Annette não esperou e falou primeiro:
"Eu não odeio ninguém. Mesmo que todo mundo me odiasse, eu não odiaria de volta. Eu não poderia. Eu não sou digna."
Heiner pareceu incrédulo com o que ela havia dito. Annette se sentiu um pouco estranha.
Será que ele pensava que ela ficava presa naquela mansão, fervendo de raiva por causa dos comentários sobre o temperamento dela? Sem um pingo de culpa ou remorso?
"Todos os jornais dizem que precisamos destruir completamente todos os vestígios da monarquia. Não sei bem que parte de mim precisa ser destruída, mas se é o que eles querem, pode fazer o que quiser.”
Annette ainda não estava familiarizada com política. Mas sabia qual era a causa. Sabia o que eram direitos humanos e o que era democracia. Sabia até por que as pessoas queriam estabelecer um novo sistema.
No passado, ela não sabia e não queria saber, mas agora ela sabia.
Havia um sentimento de culpa, dívida e vergonha. Claro, isso não era fruto de um coração compreensivo. Ela simplesmente se convenceu porque todos no mundo diziam que ela estava errada. Três anos após a queda da monarquia. Três anos era tempo suficiente para levar a mente de uma pessoa a um beco sem saída.
"Pode fazer o que quiser? Você sabe o que está dizendo agora?"
"Não me importo com nada, contanto que você me dê o divórcio."
Mesmo que caísse, ela não queria cair como esposa de Heiner Valdemar. Não queria que o homem que ela amou testemunhasse sua ruína. Esse era o último resquício de orgulho de Annette. A única coisa pela qual ela queria ser recompensada era pelo tempo que passou amando Heiner.
"Divórcio, divórcio, divórcio."
Heiner sibilou.
“Talvez porque tudo na sua vida tenha sido muito fácil, divórcio pareça algo fácil para você também.”
“Por que deveria ser difícil? Contanto que você concorde…”
“Não concordo.”
As mãos dele agarraram os ombros dela. O calor que ela sentia através da camisola era insuportável. Ele disse ferozmente:
"Eu não concordo."
"Eu não tenho mais utilidade para você. Como eu disse, sou apenas uma mancha. Por favor, me deixe ir."
Mas Heiner apertou seus ombros ainda mais forte. Estavam tão perto que seus rostos quase se tocavam. Sua respiração foi sufocada pela força feroz. Sua voz grave e profunda perfurou seus ouvidos.
"Pois continue sendo minha mancha."
"Heiner."
"Você sempre será minha esposa, nunca sairá deste lugar, não sonhe com liberdade ou felicidade. Você pagará pelos seus pecados suportando todas as suas desgraças."
Heiner cuspiu cada palavra, mastigando-as. Seus olhares se encontraram. Estavam tão perto que podiam sentir a respiração um do outro. Quando Annette franziu ligeiramente a testa, sentindo dormência nos ombros, Heiner finalmente a soltou.
Um silêncio perigoso se instalou.
A atmosfera tensa foi se dissipando aos poucos. Depois de observar Annette por um instante, como se estivesse a analisando, ele falou com mais calma.
"Haverá um banquete de inauguração no Hotel Belen daqui a alguns dias. Esteja pronta. Você irá comigo.”
“...”
“Como minha esposa.”
Ele acrescentou, para enfatizar. Os olhos de Heiner, antes abalados, se acalmaram novamente. Como uma pedra de mármore bem esculpida, havia uma maldade irreconhecível naquele rosto impecável e elaborado.
"Não. Eu não quero ir."
Annette se rebelou pela primeira vez.
"Você vai ter que ir."
"Eu não quero."
"Por quê? Você não gostava de festas?" perguntou Heiner sarcasticamente.
Ela costumava frequentar muitas festas e eventos sociais diferentes antes deles se casarem.
"Se eu não for, vai me arrastar à força?"
"Pense bem, senhora. Se continuar a desobedecer a minha vontade desta maneira, posso interná-la num hospital psiquiátrico pelo resto da sua vida.”
"... O quê?"
"Por mais que negue que não está louca, ninguém vai acreditar na sua palavra. Me teste e você verá. Não adianta fugir. Eu certamente a encontrarei. Simplesmente faça o que estou pedindo. Você não quer passar o resto da vida trancada num hospital psiquiátrico."
A voz dele era como cacos de vidro alojados em seus ouvidos, sílaba por sílaba. Annette empalideceu e encarou Heiner. Sua cabeça rangeu como uma cadeira desnivelada. A mão que segurava o cobertor tremia levemente.
Seria mesmo Heiner Valdemar? O homem que um dia ela amou tão profundamente?
Os olhos frios de Heiner não eram diferentes do habitual, mas ele era como um estranho para ela. Era tão desconhecido que chegava a ser assustador.
Como ela não percebeu isso antes? Ela deveria ter percebido no momento em que seu pai morreu. Quando ele se tornou frio e distante como se estivesse esperando por aquele momento.
Ele se aproximou dela com um propósito desde o começo. Ele era esse tipo de pessoa desde o começo.
Não... ela sabia. Ela sabia. Simplesmente não conseguia admitir. Na época, ela estava mentalmente sobrecarregada e precisava de algo para se agarrar. Esse algo era Heiner.
Naquela época, Annette permitiu se enganar constantemente. Ela jamais teria suportado de outra forma. Porque estava numa situação desesperadora.
“Ele se casou com uma dama nobre mas ela caiu em desgraça. É por isso. Um dia o amor dele vai voltar.”
Ela acreditou que voltaria. Os momentos que viveram juntos, as estações em que se amaram…
"Me responda, senhora."
Ah. Por que ela não percebeu isso antes?
O amor que nasce da utilidade não é amor.
Annette abriu a boca como se fosse dizer algo, mas fechou-a novamente. Sua voz mal saía. Ela engoliu em seco, com dificuldade, e assentiu levemente.
Apesar de ela ter aceitado, Heiner não parecia nada satisfeito. Na verdade, parecia descontente. Era como se não estivesse satisfeito com o medo e fraqueza que pareceu causar nela.
Um olhar cinza percorreu lentamente o rosto dela. Parecia infinitamente frio, mas continha um estranho calor.
Por algum motivo, Annette teve dificuldade em olhar nos seus olhos, então baixou a cabeça. Finalmente, Heiner se levantou da cama e saiu do quarto sem olhar para trás.
Batida. A porta se fechou atrás dele com força.
Annette ficou atordoada, tentando acalmar a mente confusa. Era como se uma tempestade tivesse passado. O que tinha acabado de acontecer parecia ter acontecido há muito tempo. Com um breve suspiro, Annette abriu a gaveta da mesa de cabeceira.
Lá dentro havia vários pacotes de comprimidos para dormir. Tinham sido prescritos pelo Dr. Arnold. Ela abriu o pacote e tomou um comprimido colocando o restante do pacote em um frasco. O frasco, do tamanho de uma mão, já estava mais da metade cheio.
Annette vinha acumulando comprimidos para dormir há algum tempo, como um esquilo que guarda comida. Cada vez que o frasco ficava mais pesado, ela sentia uma estranha sensação de segurança.
Ela fechou os olhos e ficou deitada, esperando o remédio fazer efeito. Torcendo para não ter pesadelos naquela noite.
***
“É por isso que não estudei no exterior. Sou um pouco tímida. Também não sou boa em línguas estrangeiras. Ouvi dizer que você viajou bastante para o exterior, não é?”
“Sim, por causa das operações especiais.”
“Você conseguia se comunicar?”
“Sim. Em muitos lugares se falava o idioma comum.”
“Quantos idiomas você fala?”
“Quatro. Porque eu fui educado desde muito cedo.”
"Nossa, isso é realmente impressionante. Eu não tenho nenhuma aptidão para estudar."
"Eu sei que você toca piano muito bem."
"Bem, eu toco desde criança. Por muito tempo sonhei em ser pianista, mas hoje não tenho tanta certeza.”
"Por quê?"
“Estou um pouco cética quanto ao meu talento. Me perguntando se é realmente o caminho certo para mim. Ah, você não precisa levar isso tão a sério. Seria considerado mais elegante tocar piano como hobby do que como profissão, na minha situação."
"Sua performance é excelente. Tenho certeza de que você será uma pianista incrível."
"Haha, o quê? Você nunca nem me ouviu tocar."
"Eu sei que você é muito boa."
Heiner disse pomposamente. Annette deu um tapinha travesso no braço dele e riu. Ele sorriu de volta. Pétalas de rosa flutuavam ao vento.
A cena ficou turva como uma névoa, depois se tornou nítida novamente. As estações mudavam constantemente. Eles sempre estavam juntos.
A paisagem passava, passava e passava. O céu noturno estava repleto de estrelas em um dia de verão. Eles estavam em um barco flutuando no lago.
"Annette, você quer se casar comigo?"
Heiner se ajoelhou e colocou um anel no dedo dela.
"Eu te farei feliz pelo resto da vida."
Os olhos dela se arregalaram. Annette cobriu a boca com uma das mãos e sem conseguir conter o coração acelerado, o abraçou. Heiner deu uma risadinha e passou o braço em volta dela.
Estrelas caíam sobre as ondas. Em meio a esse mundo cintilante, a visão de um casal flutuando em um barco era tão bela quanto uma pintura.
Uma corrente de ar vinda de longe surgiu, destruindo a paisagem. Sua visão foi se desfazendo aos poucos. Em meio às ruínas que a cercavam, apenas a voz dele ecoava.
"Eu te farei feliz pelo resto da vida."
"Que vocês vivam felizes para sempre..."
"Por toda a vida..."
"Seja infeliz ao meu lado para o resto da vida."
Annette abriu os olhos, acordando assustada.
![]() |
| tradução by CAMÉLIA |

Comentários
Postar um comentário