(Meu Querido Opressor)
- by Seo Sahee -
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Devemos deixar os remanescentes da monarquia da Padânia como estão?
Annette guardou o jornal depois de ler o título com um olhar indiferente. Discutir o destino daqueles que se beneficiaram da monarquia era um tema recorrente.
A maior parte das propriedades dos nobres havia sido confiscada. Tudo obra de Heiner Valdemar, que expôs todas as injustiças e segredos econômicos e militares, os levando à ruína.
Mas os cidadãos ainda debatiam sobre punição e prestação de contas por seus crimes. Isso porque vários aristocratas e oficiais militares haviam fugido para terras estrangeiras em busca de refúgio e asilo político.
Inúmeras cartas de condenação e ameaças foram enviadas a Annette, esposa do Comandante Chefe. A situação se intensificou ainda mais após a proposta dos Republicanos de uma lei para liquidar a monarquia.
Annette olhou fixamente para a pilha de cartas sobre a mesa, depois cobriu a boca com a mão. Seu estômago embrulhou violentamente. Ela sentia que ia desabar em lágrimas a qualquer momento.
Depois de engolir um pouco de água gelada, Annette levantou em um salto e saiu do quarto. O ar estava tão opressivo e pesado que ela não conseguiu suportar. Ela precisava caminhar, mesmo que fosse em um quintal deserto.
Annette atravessou a mansão em passos rápidos. O olhar dos criados que encontrava no caminho eram como agulhas. Era comum que eles fofocassem sobre ela. Ao passar pelo corredor do primeiro andar, ela se deparou com um rosto indesejado.
“Senhora Valdemar.”
“Major Eugen.”
Eugen Markov, subordinado leal de Heiner, era um dos muitos que desprezavam Annette.
“Há quanto tempo. Tem estado bem?”
Eugen perguntou com um sorriso tranquilo. Era uma saudação comum, e normalmente Annette responderia com um tom calmo, mas o significado por trás daquelas palavras era diferente.
Ele queria dizer que ela não deveria “estar bem.”.
“Estou como sempre.”
Annette respondeu com um ar presunçoso contido. Ela se afastou murmurando um “Tchau”. Não queria conversar mais com Eugen.
“O Conselheiro Günther apresentou uma proposta de casamento.”
Uma voz interrompeu seus passos. Foi um comentário repentino. Annette virou levemente a cabeça e esboçou um sorriso fraco.
“Te desejo felicidades.”
"Não foi para mim. Foi para o Comandante Chefe."
Seus lábios se contraiam enquanto ela sorria.
“A candidata é a Srta. Annelie Engels. Ela era da milícia. Também é uma colega que trabalhou em operações especiais com o Comandante Chefe."
Seu tom era pragmático. Eugen sempre usava seu tom de voz casual para zombar dela. Annette apertou delicadamente a manga com uma das mãos.
Republicano Günther Engels.
Ele foi a principal força por trás da vitória da revolução, desarmando os sindicatos ilegais, e foi uma grande figura que participou do estabelecimento do Governo Provisório.
Sua esposa e filho foram mortos a tiros durante as manifestações, e sua filha, Annelie Engels, era ativa em organizações paramilitares. Naturalmente, ela vinha recebendo grande apoio da opinião pública. Em muitos aspectos, ela era o oposto de Annette.
“A propósito, senhora…” Zombou Eugen, “Você ainda mora no jardim?”
Uma rosa no jardim. Era um termo depreciativo que as pessoas usavam para se referir a ela.
No instante em que ouviu isso, sua cabeça ficou assustadoramente calma. Annette olhou para Eugen com um rosto desprovido de emoção. Eugen disse sarcasticamente:
“Você não é mais filha de um homem poderoso. Você é apenas um resquício do passado que precisa ser esquecido. Se você lesse ao menos algumas linhas do jornal, saberia.”
“...”
“É apenas pela misericórdia do comandante chefe que você ainda pode andar de cabeça erguida desse jeito. Você é uma mancha para ele. O que as pessoas estão dizendo sobre seu casamento…”
“Eu pedi o divórcio para o meu marido ontem.”
Annette o interrompeu com um olhar cansado. Eugen hesitou por um instante antes de perguntar de volta:
“O quê?”
“Eu pedi o divórcio. Mas Heiner não aceitou. Aparentemente ele quer assistir minha infelicidade de perto.”
Até ontem, Annette tinha dificuldade em compreender as intenções de Heiner, mas agora que ele as havia dito em voz alta, tudo parecia um pouco mais compreensível.
"Heiner me odeia. Eu percebi isso tarde demais. O Major me odeia, as pessoas me odeiam, então por que ele não poderia me odiar também?”
A voz lamentosa de Annette ecoou pelo corredor. Eugen parecia perplexo, fingindo o contrário, como se não tivesse previsto essa situação.
Não fazia sentido. Para Annette, sua última esperança era Heiner Valdemar. Não haveria lugar no mundo que a aceitasse se ela se divorciasse dele. Era óbvio que ela não poderia querer o divórcio, mesmo que Heiner o quisesse.
"Por isso pedi o divórcio. Ficaria grata se o Major pudesse persuadir meu marido a concordar. Já que suas intenções e as minhas parecem coincidir.”
“...”
“Faça o que quiser com essa informação. Se quiser publicá-la nos jornais ou não.”
Annette deu um sorriso encantador.
***
No dia seguinte, um artigo sobre o Conselheiro Günther ter feito uma proposta de casamento a Heiner Valdemar foi amplamente divulgado.
Uma união entre o Conselheiro republicano e o Comandante Chefe. Havia uma mistura de olhares de alegria e de alerta, mas, de qualquer forma, era uma notícia excelente. A reação positiva foi um pouco mais predominante porque, dois anos antes, os dois haviam resolvido uma disputa interna entre as principais forças revolucionárias de forma justa e transparente.
Desnecessário dizer que a posição de Annette, que já era quase inexistente, se tornou ainda mais frágil. Todos os seus parentes que ainda tentavam se aproximar dela para que ela pudesse se reaproximar de Heiner também lhe viraram as costas. O divórcio de Heiner e Annette tornou-se um fato consumado em meio a rumores. E isso agradou bastante ao público.
As pessoas queriam sua queda. Mas sua posição como esposa do Comandante Chefe limitava sua infelicidade.
Quanto a Annette, aquele lugar era apenas mais um inferno, mas, de fora, parecia que ela vivia em paz, de olhos fechados e ouvidos tapados. Superficialmente, as palavras também eram verdadeiras até certo ponto. Então era natural que falassem mal dela, pensou Annette.
Ela estava deitada na cama, olhando para as molduras do teto alto. Sozinha naquele quarto enorme, sentia-se como um cadáver num caixão.
Annette se virou e deitou de lado. Vários exemplares do jornal que ela havia lido mais cedo estavam espalhados pelo chão. Um dos jornais da noite trazia um artigo que listava e criticava o preço de todos os vestidos e jóias que ela já havia possuído.
“Se você lesse ao menos algumas linhas do jornal, saberia.”
Ah, os jornais.
Annette também lia os jornais com frequência. O problema era que ela não conseguia lê-lo inteiro. Ela fechava os olhos, mas não conseguia dormir por causa da forte dor de cabeça. As enxaquecas, que começaram como estresse, tornaram-se crônicas com o tempo. Havia cada vez mais dias em que ela precisava tomar analgésicos ou remédios para insônia para conseguir dormir um pouco.
Toc. De repente, bateram na porta.
Annette estava caída contra a parede. Logo a porta do quarto se abriu silenciosamente. Annette prendeu a respiração enquanto observava a luz que vazava refletida na parede. Passos ecoaram pelo quarto desolado.
“Senhora.”
Heiner sentou-se na cama e a chamou em voz baixa:
"Annette.”
Annette não respondeu. Não porque não quisesse responder, mas porque simplesmente não se sentia bem. E sua cabeça doía. Heiner soltou um suspiro baixo atrás dela.
"Eu sei que você não está dormindo. Apenas escute."
“...”
“Não sei se você está ciente, mas recebi uma proposta de casamento de alguém do Conselho.. Tentei recusar discretamente, já que não tinha intenção de aceitar, mas a notícia vazou… De qualquer forma, eu não vou mudar minha decisão.”
“...”
“Se você está criando expectativas com isso, estou lhe dizendo para desistir.”
Houve um breve silêncio antes que ele falasse novamente.
“Você não vai embora daqui.”
Ele agia como alguém que não queria pronunciar a palavra “divórcio”. Será que o mundo acabaria se ele dissesse essa palavra?
“Mas é o que eles dizem.”
Annette sentia Heiner ouvindo sua voz. Deitada de bruços, falava baixinho.
"Que eu deveria ter caído em desgraça, mas sigo vivendo bem graças a ser esposa do Comandante Chefe. Se perguntam por que o Comandante Chefe não se divorcia da mulher, não importa o quanto ele tenha ajudado o Exército Revolucionário, ele já foi subordinado do Marquês e Comandante da Legião, se perguntam se é por isso que ele ainda não conseguiu se livrar desse mau hábito?"
“São apenas palavras.”
“Eles dizem que eu sou uma mancha para você.”
Annette sentou. Seus cabelos dourados caíam em cascata pelos ombros e costas.
Ela se virou e olhou para Heiner. Seus olhos, que ela encontrou de perto, pareciam escurecidos pela escuridão. Eram olhos que não conheciam a alegria.
Annette um dia amara a alegria de seu amado. Amara seu rosto sorridente e sua voz gentil.
Mas nada daquilo era real.
Heiner Valdemar era de fato um espião competente.
"Você ainda tem tanto rancor de mim a ponto de aguentar ser caluniado nos jornais desse jeito?"
“Onde você pretende morar depois que sair daqui, Annette? Talvez você tenha escondido alguma propriedade do seu pai sem que eu soubesse?”
Annette deu uma gargalhada. Estava surpresa que Heiner dissesse algo assim. Não era ele o homem que sabia de tudo no mundo e que controlava tudo?
"Eu não tenho nada e não tenho para onde ir, como você bem sabe.”
"Você esqueceu que esteve em contato com aliados do seu pai para descobrir o meu passado?"
"Como eles podem me ajudar se estão na prisão? E faz muito tempo que comecei a investigar seu passado. Nesse período, todos eles foram executados ou enviados para campos de prisioneiros na ilha. Posso listar os nomes deles, se você quiser."
“Seu pai tinha ótimas conexões. Quem sabe onde podem estar agora. E não é como se você não soubesse que alguns dos que escaparam estão vivendo muito bem exilados no exterior.”
“Eu prometo que não irei para o exterior, nem levarei nada desta casa comigo. Eu só quero o divórcio.”
“Já que você quer tanto, eu quero te ouvir menos ainda.”
Heiner falou com uma expressão completamente fria, abandonando até mesmo a menor demonstração de fingimento.

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