(Meu Querido Opressor) 

- by Seo Sahee -

7


 “Eu não quero comer.”

Annette protestou, mas Heiner simplesmente retirou os papéis em branco da mesa sem responder.


“Não quero comer isso.”


“Você está tentando morrer de fome?”


“Que diferença faz para você se eu morrer de fome ou não?”


“Se você quer morrer, escolha uma maneira mais elegante.”


Heiner se afastou da mesa limpa e olhou para ela friamente.


“Você é a Princesa de Rosenberg, afinal.”


A expressão de Annette endureceu por um instante. Ela cerrou os dentes e baixou os olhos. Ao ver aquele rosto ferido, Heiner sentiu-se sujo, mesmo o sarcasmo tendo partido dele. 


Princesa de Rosenberg. Era assim que as pessoas costumavam chamar Annette.


Annette era a dama desejada por todos os homens da capital. Filha única da ilustre família Rosenberg, ela possuía beleza, um coração bondoso e era uma pianista promissora.


Ninguém ousava tratá-la com leviandade. Só de olhar para Annette, sentia-se sua nobreza.


Chamá-la por esse título agora não passava de zombaria.


Enquanto o silêncio desconfortável se instalava, um criado entrou com comida. Heiner a colocou sobre a mesa e falou:


"Por favor, coma."


"Saia. Eu comerei sozinha."


"E você vai mandar levar de volta sem nem mesmo provar?"


"Se eu mandar de volta, o que você vai fazer?"


Annette falou rispidamente. Os olhos de Heiner se arregalaram ligeiramente.


"Não é típico de você falar assim."


“Não é típico? O que você sabe sobre mim?”


Annette, deu uma risada irônica. Isso também não era típico dela.


Em todos os anos que Heiner a conhecera, Annette jamais usara um tom tão sarcástico. Mesmo quando estava zangada, expressava sua raiva com sinceridade.


Annette era uma mulher que se mantinha calma e gentil, mesmo quando descobriu as verdadeiras intenções dele e pediu o divórcio.


Mas agora ela parecia bastante sensível.


“São esses remédios?”


“O que droga tem nesses comprimidos?” 


Heiner disse baixinho, controlando a tensão que o dominava.


"Pelo menos eu sei mais sobre você do que você sabe sobre mim."


"Claro. Porque você precisava me conhecer para conquistar meu coração." 


As palavras fizeram Heiner querer questioná-la.


"Mas, Heiner..."


Eu ainda tenho o seu coração?


“Nada mais é como antes.”


Você ainda me ama?


“Tudo mudou.”


Por que ele queria perguntar essas coisas para ela? 


"Não sou mais a 'Princesa de Rosenberg', não sou mais sua amada e não sou mais aquela jovem alheia ao mundo. A pessoa que você conheceu e a pessoa que você conhece agora são completamente diferentes.”


"Bem, eu não sei."


"Então você deveria saber agora." 


Heiner olhou para ela com uma expressão impassível. Ele realmente não sabia.


Annette tinha razão. Ela não era nada agora.


Seu nascimento brilhante havia se tornado nada mais que um pedaço de papel, o amor transbordante havia desaparecido e ela não podia mais tocar o piano que tanto amava. Ela agora não era nada. Mas por quê...?


Heiner moveu os lábios silenciosamente.


Por quê?


Por que você ainda é tão bela e nobre?


Por que eu ainda tenho que sentir esse complexo de inferioridade e essa miséria sempre que estou diante de você?


Ele realmente não sabe.


“...Por favor, coma. Antes que eu a obrigue a comer.”


Heiner, falando em voz um pouco baixa, sentou-se na cadeira em frente a ela. Seus traços, vistos de perto, pareciam ainda mais delicados.


“Depressa.”


A pedido de Heiner, Annette começou a comer a sopa com relutância. Ela comia tão silenciosamente e devagar que nem mesmo os pratos tilintavam.


Heiner a observava com uma expressão ligeiramente perturbada. Talvez porque Annette nem olhou em sua direção. 


Um rosto pequeno e pálido. Cabelos loiros e olhos azuis, o epítome da beleza padaniana. Cílios longos projetavam sombras sob os olhos, e um nariz impecável.


É exatamente a mesma de quando era jovem. Ela apenas se tornou muito mais madura.


Heiner se lembrou do momento em que viu Annette pela primeira vez. Uma menina que parecia uma boneca. As pequenas mãos brancas que se moviam pelas teclas do piano.


Uma aparência nobre que faz você se perguntar se é mesmo verdade que nasceram sob o mesmo céu.


Quão baixo e humilde ele se sentiu naquele momento.


Heiner lutou para afastar o pensamento. Olhou para o bordado sobre a mesa com olhos pesados ​​e fundos. Os fios estavam emaranhados aqui e ali. Annette, que mexia a sopa lentamente, de repente abriu a boca.


"Gostaria de passar um tempo sozinha em algum lugar longe daqui.”

"Sozinha? Onde?"


“Eu não decidi ainda, mas para qualquer lugar…”


 “Você achou que eu permitiria isso? Para onde pensa que pode ir?


“Pensando agora..” 


A colher que estava girando na sopa parou.


“Quando foi que eu comecei a pedir sua permissão para tudo?” 


Seus olhos baixos não o encararam. Ela murmurou baixinho: 


“Eu sei o que você está pensando.”


Com isso, Annette parou de fazer perguntas. Heiner também se calou. O silêncio voltou a reinar entre eles. Ela comia arrastando as palavras e, depois de mal ter terminado um terço da comida, largou a colher.


"Não consigo comer assim."


"Até alguém que passou fome por vários dias receberia um tratamento melhor do que isso."


“Você me assistindo de perto desse jeito…  Sinto que vou ter uma indigestão.”


Heiner suspirou baixinho e se levantou. Seus passos em direção à porta pararam por um instante. Heiner virou levemente a cabeça, olhou para ela e falou em tom de advertência.


“...Se eu ouvir que você se recusou a comer mais uma vez, vou considerar que você tem um transtorno alimentar e mandar interná-la.”


Não houve resposta. Annette olhou para a sopa, com o rosto abatido.


Heiner cerrou o punho, depois o abriu e abriu a porta bruscamente.


***


Pernas compridas atravessaram a sala. Ao entrar, Heiner colocou a caixinha de remédios sobre a escrivaninha e girou o disco do telefone. Não demorou muito para que a pessoa do outro lado da linha atendesse.


“Sim, Arnold Berkell falando.


“É Heiner Valdemar. Desculpe ligar à noite, Dr. Arnold, posso falar com o senhor um instante?”


“Oh, senhor, sem problemas. Como posso ajudá-lo?"


“Gostaria de saber sobre um medicamento. Foi o remédio que o senhor receitou para minha esposa. É pequeno, circular, branco e tem as letras S, Z e 5 no meio."


“S, Z... ah, é Sinazel.”


 "É um calmante?"


“Sim. Costumo prescrever remédios para dormir. E esse é para sua esposa."


“...Certo, obrigado. Até a próxima."

“Sim, Vossa Excelência, tenha uma boa noite.”


Ao desligar o telefone, Heiner apoiou as mãos na mesa e respirou fundo por um instante. Um silêncio sepulcral pairava no quarto escuro. Em sua visão turva, a caixinha de remédios tão brancos chegava a doer os olhos. Sua superfície parecia se sobrepor ao rosto pálido de Annette. Heiner pegou a caixinha da mesa e a jogou na lata de lixo. 


"Isso tudo é tão rídiculo."


Ele se virou e caminhou até o armário, com a cabeça baixa. Heiner tirou o casaco cinza, pendurou-o em um cabide e desabotoou a camisa.


Colecionar drogas é um sinal comportamental de alguém que contempla a morte. No entanto, Heiner nunca suspeitou que Annette estivesse realmente considerando o suicídio. Provavelmente era apenas um hábito para se sentir melhor.


Annette era uma mulher tímida e frágil. Faltava-lhe coragem até mesmo para decidir morrer. Por isso, tremia tanto diante de coisas como opiniões em jornais e pianos.


Treinamento, espancamentos, tortura, fome, a sensação de matar... ela não sabia de nada sobre isso. Sentia profunda infelicidade por coisas tão banais. 


Heiner mexia os dedos desajeitadamente enquanto desabotoava a camisa. Mas não se importava. Olhava fixamente para o espelho de corpo inteiro à sua frente.


Um homem de olhos cinzentos e sombrios estava aprisionado no vidro.


"Quanto mais olho, mais penso nisso, mas acho que você tem olhos realmente lindos.


"Meus olhos? É a primeira vez que ouço isso."

Sério? Não acredito, são tão lindos. Seus olhos são o que eu mais gosto em você."


Então o resto é feio?


De jeito nenhum! Meus padrões são altos. Eu jamais namoraria um homem que não fosse bonito.


Ah, eu teria gostado de você mesmo se você não fosse bonita.


Isso significa que eu sou bonita de qualquer forma?


Você é a mais linda do mundo.


Os olhos, cheios de amor, se curvaram suavemente. As pupilas azuis estavam escondidas, quase invisíveis.


Uma brisa primaveril soprou ao longe. Cabelos dourados e deslumbrantes esvoaçaram. Então, uma risada clara se espalhou como pétalas de flores.


Onde a ilusão havia desaparecido, restava apenas uma área cinzenta e desolada. Ele fechou os olhos por um instante e os abriu novamente. Era a realidade mais uma vez.


"Que bom que você está infeliz." murmurou Heiner para si mesmo.


“Você deveria se desesperar tanto quanto eu me desesperei. Você deve perder tanto quanto eu perdi. Porque você esteve presente nos meus momentos de infelicidade, eu devo estar presente nos seus. Assim como minha vida foi longa e sombria, a sua também deveria ser." 


Heiner tirou a camisa. Apenas o farfalhar das roupas no silêncio preenchia o quarto. O espelho, meio enterrado na escuridão, refletia seus ombros largos e o peito firmemente musculoso.


Na parte superior do peito havia algo escrito,  gravado com letras garrafais em uma caligrafia desleixada. Parece ter sido feito com ferro quente, emaranhado em marcas vermelhas:


EU SOU UM PROSTITUTO DE PADÂNIA


tradução by CAMÉLIA

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