(Meu Querido Opressor)
- by Seo Sahee -
5
O que ele está fazendo?
Annette pensou em pegar outro copo, mas não queria iniciar uma discussão desnecessária e chamar a atenção. No fim, ela desistiu e não teve escolha a não ser suportar mais uma longa hora.
De repente um barulho de palmas surgiu em direção ao palco. O apresentador estava posicionado ao meio, segurando um microfone. Todos os olhares se voltaram para a frente. Annette lançou um olhar rápido para o apresentador e, em seguida, fitou a janela com desinteresse. Lá fora, a noite já havia caído.
As piadas do apresentador arrancaram gargalhadas da plateia. Em seguida, ele fez perguntas como: "A comida está agradável?" e "Vocês estão gostando do banquete?", antes de chegar ao ponto principal.
"Hotel Belen, trouxe um convidado muito especial para os nossos hóspedes hoje. Nosso diretor se esforçou bastante."
Então, a multidão aplaudiu. Até então, Annette continuava olhando pela janela.
"Para uma apresentação digna de uma bela noite de outono, Felix Kafka, o gênio extraordinário nascido na Padânia, o mestre do piano!"
O corpo de Annette estremeceu. Seus olhos semicerrados dilataram lentamente e suas pupilas começaram a tremer. Ela virou a cabeça rapidamente e observou o homem subir ao palco sob aplausos.
Felix Kafka.
Um pianista prodigioso que havia conquistado o primeiro lugar em todos os tipos de competições, incluindo o prestigiado Concurso Internacional Pricarlo, o mais importante do mundo.
Ele uma vez fora o ídolo de Annette.
Após cumprimentar educadamente a plateia, Félix sentou-se ao piano. Respirou fundo e expirou. Em seguida, fechou os olhos como se estivesse imerso em seu próprio mundo perfeito.
Seu rosto era tão piedoso e santo, diferente de tudo neste mundo. Era como se apenas Felix e o piano existissem naquele enorme salão. Abrindo os olhos, Felix passou o dedo pelos cabelos e ergueu a mão esquerda. Seus dedos, que haviam permanecido suspensos no ar por um instante, pousaram lentamente nas teclas.
Annette prendeu a respiração até que as teclas fossem pressionadas e as primeiras notas fossem ouvidas.
Nocturne, no 2.
A melodia suave serpenteava pelo ar. Houve um tempo em que Annette tocava essa peça inúmeras vezes. Apesar de um intervalo de quase três anos, ela conseguia se lembrar das notas vividamente.
Mi bemol. Forma binária. Acordes dispersos na mão esquerda. Notas não harmônicas e melodias cromáticas que se adicionavam à medida que a melodia se repetia…
Antes que o sopro do som se extinguisse, Felix lhe dava vida, conectando a próxima nota. Tonalidade por tonalidade. A força vital fluía continuamente por sua mão. Era como se Felix fosse o mensageiro, recriando a ideia original ali. Naquele momento, o mundo em que ela se encontrava perdeu o sentido, e cada respiração, cada expiração, parecia estar atrelada à sua performance.
A melodia de sussurrar amor na janela de seu amado no meio da noite era tão bela que trouxe lágrimas aos seus olhos.
Sonata para Piano, La Campanella.
Até o fim do bis, Annette manteve as mãos unidas com força. Alheia ao olhar contínuo que pairava sobre ela. Os aplausos transbordaram quando Felix se levantou para se curvar. As pessoas se reuniram ao seu redor enquanto ele descia do palco.
Annette o encarou desesperadamente, paralisada. Seu peito estava repleto de emoção e tristeza.
Você é meu ídolo.
Eu cresci sonhando depois de ouvir suas apresentações.
Eu quero ser pianista como você.
Palavras que ela disse uma vez, mas que agora não conseguia mais pronunciar, permaneceram em sua boca.
Annette e Felix já haviam se encontrado algumas vezes no passado, graças às conexões do pai dela. Ela conseguira um autógrafo de Felix, conversara com ele e recebera até seu incentivo e apoio.
Mas agora nada era como antes.
Felix era um pianista genial e bem-sucedido, nascido em uma família plebeia. Provavelmente a desprezava mesmo naquela época, embora não demonstrasse. Agora deve ser ainda pior.
Os cílios de Annette tremularam. Heiner olhou para o rosto transparente dela com um olhar vazio. Assim que abriu a boca para dizer algo alguém falou antes.
“A senhora Valdemar também não tocava piano?”
Uma pergunta gentil foi dirigida a Annette.
Annette, meio atordoada, estremeceu. Olhou em volta, sem esconder sua confusão. Todos, inclusive Felix, olhavam para Annette como se já tivessem trocado algumas palavras. Annette riu sem jeito e balançou a cabeça.
"Sim, mas eu..."
"Você também ganhou o terceiro lugar em uma competição internacional, não é?"
“Ah, eu também me lembro disso. Estava em todos os jornais da capital.”
“E você também não fez um recital?”
“Foi graças ao falecido Marquês Dietrich, que pagou pessoalmente pelo salão...”
Quanto mais falavam, mais o sangue sumia do rosto de Annette. Embora fosse verdade que seu pai tivesse gasto dinheiro com o concerto, o recital em si era uma qualificação concedida aos vencedores do concurso pela fundação.
A mulher que primeiro fez a pergunta a Annette sugeriu com um sorriso:
"Se não se importar, senhora Valdemar, não poderia tocar uma peça para nós?"
"Oh, não. Eu não estou a altura."
"Não seja tão modesta. Ouvi dizer que a senhora teve aulas com pianistas talentosos desde muito jovem."
"Faz muito tempo que não toco, então minhas habilidades..."
"Por favor, sim. Vamos lá."
A mulher passou os braços pelos ombros de Annette e a conduziu para frente. Annette olhou para Heiner como se buscasse ajuda, mas ele apenas ficou ali parado, indiferente, com um olhar distraído. Por um instante, ela sentiu vontade de gargalhar.
"O que eu esperava daquele homem?" pensou.
“Só porque eu gostaria que acontecesse, ele não é o tipo de pessoa que impediria isso de acontecer. O que, afinal, eu esperava dele?”
Annette, que fora praticamente empurrada para se sentar ao piano, olhou ao redor da sala por um momento. Felix, com o olhar fixo nela, assentiu com a cabeça, concordando com as palavras da pessoa ao seu lado.
Annette voltou o olhar para o piano. Ver as teclas de perto pela primeira vez em muito tempo era uma sensação incrivelmente estranha.
Não importava o que tocasse agora, pareceria ruim diante de Felix Kafka, o pianista mais renomado. Ainda mais depois de um hiato de três anos. O motivo de a terem escolhido para tocar naquela situação era óbvio.
Ela tivera a sorte de nascer em uma família aristocrática rica, de receber a melhor educação e de se apresentar em um recital... mas era apenas isso. Queriam insultá-la revelando esse fato ali.
Annette baixou a cabeça, pálida. Além do ocasional tilintar de taças, o salão estava assustadoramente silencioso.
Quanto mais o silêncio se prolongava, mais sua mente se desmoronava a cada instante. Depois de um longo período imóvel, algumas pessoas começaram a cochichar. Os sussurros soavam como o som de chicotes.
Annette fechou os olhos e ergueu as mãos com dificuldade. Mas suas mãos não alcançaram o topo do teclado. Seus dedos começaram a tremer. Não era por nervosismo ou vergonha. Não era por medo do ridículo que sofreria por tocar uma música terrível. Nem mesmo porque havia esquecido a música.
“Annette!”
Apenas…
“Precisamos fugir!””
Toque o piano.
“Levante!”
Ela não conseguia tocar o piano. Nem uma única nota.
“Vamos, corra!”
Um arrepio percorreu seu corpo como se tivesse levado um banho de água fria. Annette involuntariamente cobriu a boca com uma das mãos. Sentiu o estômago revirar violentamente enquanto uma súbita dor de cabeça a atingia em cheio.
Annette deu um pulo. A cadeira foi empurrada com um estrondo alto.
Ela saiu rapidamente do corredor, ignorando os rostos perplexos das pessoas. Entrou no banheiro antes que a porta se fechasse. Seu estômago revirou enquanto ela agarrava a tampa do vaso sanitário no canto e vomitava.
“Ah…”
Sua garganta ardia em brasa. Annette vomitava sem parar. Depois de vomitar algumas vezes, nada mais saiu, mas ela ainda sentia náuseas.
"Ouvi falar da Srta. Rosenberg. Disseram que ela é muito talentosa. Espero que possamos nos encontrar novamente algum dia, no próximo recital."
Quem diria que eles realmente se encontrariam novamente? Os lábios cerrados de Annette tremeram convulsivamente.
Talentosa?
Ela duvidava até mesmo que um dia tivesse sido, mas mesmo que tivesse, de que adiantava agora? Até mesmo sentar ao piano já era difícil o suficiente. Annette, que respirava com dificuldade há algum tempo, cambaleou até se levantar.
Seus movimentos cessaram assim que se dirigiu à pia. Heiner estava parado como um fantasma junto à porta do banheiro. Por algum motivo, ele parecia assustado. Ela não o via assim há três anos.
Annette virou o rosto. Sua cabeça doía e ela não queria pensar muito nisso. Lavou as mãos na pia, enxaguou a boca e caminhou em direção à porta.
Mesmo assim, Heiner permaneceu imóvel. Ao chegar diante dele, Annette fechou os olhos, cansada. Ela estava exausta.
"Eu… quero ir para casa."
***
Em suas memórias, tudo aconteceu da noite para o dia.
Annette estava tocando piano na sala de ensaio de casa com seus pais quando forças revolucionárias armadas invadiram a residência dos Rosenberg. Uma competição estava prestes a começar. Não havia tempo para se preocupar com mais nada. Com o som do piano preenchendo a sala, ela não conseguia ouvir o barulho lá fora.
Até que seu pai, com o rosto tenso, abriu a porta de repente e entrou.
"Annette! Annette! Precisamos fugir!"
"Pai? Por que de repente…"
"Não há tempo para explicações, apenas levante agora! Vá para os fundos da mansão!"
Bang!
As pupilas de Dietrich tremeram com o som do tiro. Sangue espirrou nas paredes e no chão. Annette gritou e cobriu a boca. Seu corpo cambaleante caiu imediatamente no corredor, do lado de fora da porta, com um baque surdo.
Da visão de Annette, tudo o que ela conseguia ver eram as pernas estendidas do pai. Os passos do exército revolucionário ecoaram pela mansão. Eles entraram no corredor, pararam diante do corpo de Dietrich e disseram algo.
“Não o matem ainda…”
“...Falha na ignição…”
“Esperem… chegar primeiro…”
Um deles encontrou o olhar de Annette. O soldado revolucionário apontou a arma para ela, mas, talvez julgando que ela não representava uma ameaça, recuou.
“Você é a filha do Marquês.”
Um sorriso de escárnio surgiu em seus lábios.
“Parece que você estava tocando piano tranquilamente? Quanta nobreza!”
Isso foi há três anos.
![]() |
| tradução by CAMÉLIA |

Comentários
Postar um comentário