(Meu Querido Opressor) 

- by Seo Sahee -

16


“Excelência, sua esposa foi baleada e levada às pressas para um hospital da cidade. Ela está recebendo tratamento nesse momento.” 


Os papéis farfalhavam em suas mãos. Um momento de silêncio se seguiu. Heiner largou os papéis e perguntou brevemente:


“Qual é o estado dela…?”


“Ela está inconsciente, mas não corre risco de vida. E…”


“Entendido. Perguntarei diretamente para o médico.”


Heiner não fez mais perguntas sobre as circunstâncias do incidente, apenas relatou o ocorrido. Os subordinados que lhe reportavam olharam para ele com expressões perplexas.


"Qual é o hospital?"


“Hospital Luterano em Launceston.”


Heiner desligou o telefone e chamou um empregado.  


“Deixem um carro esperando lá embaixo.”


Ele se levantou e vestiu o casaco. Seus subordinados trocaram olhares ao verem o rosto completamente abatido do superior.


"Ouvirei o relatório mais tarde."


"Sim!"


O Comandante Chefe fez uma breve saudação militar, e seus subordinados ergueram as mãos com determinação. Heiner saiu da sala sem sequer olhar.


A cada passo, sentia o equilíbrio vacilar. Cerrou os punhos, as mãos tremendo levemente. Tudo o que ouvia soava como um ruído terrível.


Heiner desceu as escadas correndo, sem nem esperar o elevador. Assim que entrou no carro estacionado, abriu a boca.


"Hospital Luterano. O mais rápido possível."


Durante todo o caminho até o hospital, Heiner não conseguiu esconder o nervosismo. Ele enfiou a mão no bolso, tirou um charuto mas não o acendeu. Inclinou a cabeça para trás, o charuto ainda em sua boca. Seus dedos tamborilavam nas coxas. 


Annette não estava em estado crítico. Mas estava inconsciente.


Perguntas óbvias como quem, quando, onde e por quê não lhe vieram à mente naquele momento. Ele simplesmente... não conseguia pensar direito. O relato que ouvira ao telefone não parava de girar em sua cabeça.


Heiner enxugou os olhos cansados. Distraidamente, tocou a nuca, sentindo um arrepio, mas não encontrou o alívio que precisava.


O carro logo chegou em frente ao hospital. Ele jogou o charuto não fumado no cinzeiro e se levantou. Entrou rapidamente no hospital e parou na recepção.


“Annette Valdemar. Ela tem um ferimento de bala.”


“...Ah, sim! Sim, sim. Para, A-4... Walter! Leve-o até lá.


Um funcionário saiu apressado dos fundos e o conduziu até o quarto do hospital. Heiner o seguiu em silêncio, com uma expressão sombria. 


Assim que Heiner entrou no quarto particular, o médico o seguiu. Ele devia ter entrado correndo após receber o relatório urgente, pois gotas de suor se formaram em sua testa.


“Sou Yannis, ah, Schultz, é uma honra conhecê-lo, Vossa Excelência.”


Heiner não olhou para o médico, mas sim para Annette, que jazia pálida. Seus olhos percorreram o corpo dela obsessivamente. Ele não percebeu que seu rosto estava perturbado.


“Como ela está?”


“A bala passou de raspão, ela foi transportada rapidamente e já recebeu o tratamento adequado, então seus ferimentos logo cicatrizarão…”


O médico hesitou, como se estivesse buscando as palavras certas, mas Heiner, tão concentrado em Annette, não percebeu.


“No entanto, Vossa Excelência,  não sei se o senhor sabia, mas sua esposa...”


“...”


“Sua esposa estava grávida.”


“...”


“Ela ainda estava nos estágios inicias, mas infelizmente sofreu um aborto espontâneo…  A lesão deve cicatrizar naturalmente, mas pode haver algumas sequelas do aborto..." 


"...O quê?" 


Heiner virou a cabeça abruptamente e perguntou tardiamente: 


"O que você acabou de dizer?"


"Ah, bem, sua esposa sofreu um aborto espontâneo..."


"Você disse que ela estava grávida?"


"Sim, sim. De cerca de 11 semanas... Ela estava sangrando quando a trouxeram, e foi por isso que perdeu a consciência." 


Heiner permaneceu imóvel e não disse nada. O médico acrescentou hesitante: 


"Sinto muito, senhor, mas na minha opinião... este incidente… tornará difícil para ela engravidar no futuro.”


“...”


“O corpo dela já está bastante fragilizado, então mesmo que ela desse à luz, acho que seria difícil para ela ter outro filho." 


Heiner ouviu sem respirar direito. As palavras que saíam da boca do médico pareciam um pesadelo. 

Grávida... 


Ela estava grávida? 


Aborto espontâneo? 


As duas palavras colidiram vertiginosamente. Heiner virou a cabeça novamente, atordoado. Seus olhos cinzentos tremeram enquanto ele olhava para Annette.


No passado, ela desejava desesperadamente ter filhos. Mesmo quando os médicos lhe disseram que sua constituição dificultava a gravidez, ela se recusou a desistir.


Durante o primeiro ano de casamento, eles frequentemente passavam a noite juntos, e mesmo depois da revolução, Annette ainda buscava sua companhia. Talvez ela tenha nutrido a esperança de engravidar. Uma vã fantasia de que, uma vez que tivessem um filho, as coisas voltariam a ser como antes. 


Mas, apesar dos esforços de Annette, nos últimos quatro anos ela nunca engravidou. Naturalmente, a questão “filhos” deixou de ser relevante. Heiner tinha uma vaga ideia de que ela pudesse ser infértil.


Mas ela estava grávida. 


11 semanas...?


Foi a última vez em que eles dormiam juntos. A razão é que Anette não tinha mais o procurado desde que o divórcio começou a ser mencionado. 


De todos os momentos, tinha que ser justo naquele. 


Era como se alguém tivesse pregado uma peça de mau gosto nele. Azar. Não havia outra explicação senão, azar.


Heiner repassou mentalmente a sequência de eventos desse acidente repentino. 


Annette estava grávida, justo nesse momento e então isso acontece e ela sofre um aborto e agora nunca mais vai conseguir engravidar de novo… 


Seus pensamentos se amassavam como papel. Eram incoerentes e irracionais. Heiner tocou os lábios com a mão trêmula.


"... Certo… Entendo…”


"Sim, Vossa Excelência. A senhora acordará em breve. Os resíduos no útero serão expelidos naturalmente."


Resíduos...


Era uma palavra seca, completamente sem vida. Heiner a achou profundamente irritante, embora não conseguisse entender exatamente por quê.


"No entanto, se o sangramento não parar ou se o quadro persistir, uma cirurgia para remoção dos resíduos internos poderá ser necessária."


Heiner tentou ouvir atentamente cada palavra dita pelo médico, mas não tinha certeza se estava fazendo certo. Ao ouvir sobre as possíveis sequelas de um aborto espontâneo, ele teve dificuldade para abrir a boca.


"Por favor, não deixe que a notícia sobre a gravidez e o aborto vaze para a imprensa."


"Sim, Vossa Excelência. Há algo mais que o senhor gostaria de saber ou de que precise?"


“Minha esposa tem dificuldade para dormir, mas parece ter piorado recentemente. Isso pode estar relacionado à gravidez?”


"Varia de mulher para mulher, mas existem muitos sintomas possíveis durante os estágios iniciais da gravidez. Se ela já tem insônia, poderia piorar a situação."


Ele não conseguia se lembrar exatamente quando a insônia de Annette piorou. Ele havia se esforçado conscientemente para não pensar nisso. Heiner cerrou os punhos e perguntou em voz baixa: 


"Ela pode continuar tomando seus remédios?”


"Se é um medicamento que ela já estava tomando antes  então não terá problema.”


“Você poderia dar uma olhada e se houver algum melhor poderia trocar a prescrição?”


“Sim, Vossa Excelência. Se precisar de mais alguma coisa, por favor, me avise.”


“Sim. Obrigado.”


Enquanto respondia o olhar de Heiner continuava fixo em Annette.


“Então, com licença.”


O médico lançou um olhar para as costas largas do Comandante Chefe antes de sair da sala sentindo que era inadequado, fechou a porta com firmeza.


Bam.


“Ufa.”


O médico enxugou o suor da testa e ajeitou a bata. O jovem Comandante Chefe, alvo de rumores, tinha uma aura mais ameaçadora do que ele esperava. Era surpreendentemente bonito, mas possuía uma presença opressora.


Sua esposa era tida como uma das mulheres mais belas de Lancaster, mas as fotos não lhe faziam justiça. Apesar das histórias terríveis que circulavam sobre eles, o casal realmente parecia bem junto, tirando as notícias e informações privilegiadas. O jeito como ele olhava para a esposa…


Lembrando da expressão do Comandante Chefe, o médico inclinou a cabeça.


“Quem disse que os dois tinham um relacionamento ruim?”


***


Heiner.


Annette umedeceu os lábios enquanto estava de pé no quarto dele, segurando um abajur. A luz pálida da lâmpada iluminava o rosto anguloso de Heiner.


Você está ocupado hoje...? Se não...


A ponta da sua voz tremeu levemente. Ele devia ter entendido o que Annette queria dizer. Apesar das inúmeras visitas e pedidos que fizera nos últimos três anos, ela ainda não se acostumara com essa estranha sensação de vergonha.


Heiner olhou para ela em silêncio. Annette mordeu o lábio inferior, puxando-o levemente. Aqueles olhos acinzentados a faziam se sentir sufocada.


Se você não gosta de mim, é só dizer.


Se você não gosta disso, apenas me rejeite.


Não me beije, não me abrace, apenas me mande embora. 


As palavras que estavam na ponta da língua foram engolidas novamente.


Annette baixou a cabeça e segurou cuidadosamente a barra da camisa dele. Ela esperava que ele não dissesse não. Esperava que ele não a rejeitasse. Esperava que ele não a mandasse embora.


Ela queria alcançá-lo. Mesmo sabendo que o relacionamento deles já estava arruinado, quando ele a abraçava, tudo parecia bem.


Mesmo sabendo que a única coisa que restaria depois que acabasse seria tristeza. 


Os olhos cinzentos de Heiner percorreram o corpo de Annette, de baixo para cima, e depois voltaram a percorrer seu corpo. Seu olhar pousou no decote revelado através do vestido levemente dobrado.


A mão de Annette, agarrada à barra do vestido, tremia levemente. Heiner lançou um último olhar para a mão dela e a conduziu silenciosamente para dentro do quarto.


A porta se fechou silenciosamente. Annette foi empurrada para dentro do quarto, sua forma lentamente engolida pela escuridão. 


Lá dentro, uma única lâmpada incandescente de baixa intensidade estava acesa. Heiner caminhou até lá e a apagou. Num instante, o quarto escureceu.


Ele sentou na beira da cama. Annette parou à sua frente e desamarrou o roupão. O tecido macio deslizou por seus ombros.


Seus corpos estavam próximos. Uma mão grande e quente envolveu sua cintura nua. Na escuridão total, ela podia sentir claramente o calor do corpo dele.


Heiner a ergueu delicadamente e a deitou na cama. Ouviu-se o som de suas roupas se despindo. As peças caíram no chão, roçando sua pele nua. Annette fechou os olhos com força.


Não houve conversa. Isso era tudo.


tradução by CAMÉLIA

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