(Meu Querido Opressor)
- by Seo Sahee -
14
Depois de encarar o cartão de visitas por um tempo, Heiner, surpreendentemente, não teve nenhuma reação específica. Ele simplesmente o guardou no bolso da calça. Um silêncio constrangedor se instalou. Annette, que estava mexendo na xícara de chá, falou hesitante.
"É do Ans."
As mãos de Heiner, que estavam colocando os pertences dela de volta na bolsa, pararam por um instante. Ele fechou a bolsa com um movimento natural, como se nada tivesse acontecido, e ergueu a cabeça.
"Se eu for com ele..."
Fechando os olhos, Annette continuou a falar.
"Seria melhor para mim? Não estou dizendo que vou embora. Só quero saber sua opinião.”
"Não sei que resposta você quer ouvir."
"Existe algum movimento de Restauração na França?"
Os olhos de Heiner se estreitaram ligeiramente diante da pergunta direta.
“Heiner, você sabe, não é?”
“Ansgar Stetter disse isso? Que existem movimentos pela restauração da monarquia na França e que você deveria se juntar a elas?
“Não, eu é que estou dizendo. Ansgar só disse que gostaria que eu fosse com ele.”
“Se você pensa assim, por que está me perguntando?”
“Só estou dizendo. Não tenho nada a esconder de você e não vou seguir Ansgar secretamente.”
O tom da sua voz afirmava sua inocência, mas não demonstrava desespero. O rosto de Heiner, ao ouvir essas palavras, não revelou nenhuma emoção.
“Quem sabe.”
Ele cuspiu as palavras sem nenhum tato, como se estivesse pensando em algo.
"No passado, Ansgar Stetter gostava de você, e agora ele está solteiro. E se, como você acredita, realmente houver um movimento de restauração da monarquia na França, eles te tratarão bem. Mas não posso garantir já que sua reputação na Padânia é péssima, então eles podem achar que não há nenhuma utilidade para você.”
Heiner fez uma pausa e sorriu friamente
"Você disse que não há nenhum lugar onde possa ser feliz, mas pelo menos encontrou um lugar que vai te aceitar. Mesmo achando que no fim tudo será inútil mesmo.”
"Como eu disse, eu não vou embora com o Ansgar. E meu palpite pode estar errado. No entanto..."
Annette continuou em tom cauteloso.
"Só para o caso de você não saber... eu queria te informar sobre a possibilidade de movimento de restauração… claro, talvez você já saiba mas…”
“Você não vai ganhar nada me dizendo isso.”
Os olhos cinzentos, como os de um delator, deslizaram lentamente pelo corpo dela, para depois voltarem a subir. As pontas do cabelo dele, contra a luz, pareciam amarelo-pálido.
Annette riu amargamente.
"Pensei que você estivesse tentando tornar o mundo um lugar melhor."
O mundo era agora um lugar melhor do que antes? Annette não conseguia sentir. O novo mundo era cruel demais com ela.
Mas as pessoas diziam que o mundo agora era um lugar muito melhor e que melhoraria ainda mais. Se for esse o caso, então deve ser verdade. Ela não é sábia, é uma mulher tola. Ela nunca julgou, e mesmo que julgasse agora, estaria errada.
Suas palavras para Annelie Engels também foram sinceras. Annette respeitava a causa daqueles que buscavam mudar o mundo, mesmo que essa causa fosse infinitamente cruel para ela. Mesmo que ela não conseguisse entender. Sentimentos como vingança e ressentimento já haviam desaparecido há muito tempo. Como cinzas queimadas, era apenas uma velha cicatriz.
No silêncio, ela podia ouvir a respiração de Heiner. Era uma respiração tão forte e regular quanto seu temperamento.
“...Eu nunca pedi a sua compaixão.”
Após um momento de silêncio, Heiner colocou a mão sobre o cobertor. Em seguida, inclinou-se para mais perto dela. Os ombros de Annette encolheram levemente enquanto seu rosto severo se aproximava.
Uma voz grave soou.
“Não pense em nada. Apenas ignore.”
“...”
“Você sempre foi boa nisso.”
Ela certamente estava sendo ridicularizada, mas por algum motivo Heiner parecia magoado. Ele rapidamente disfarçou a expressão e abriu a boca novamente com um semblante frio.
"Eu sei melhor do que você que Ansgar Stetter queria você. Se você não tivesse se casado comigo, seu marido teria sido ele. Não acredito em uma palavra do que você diz."
"Eu nunca o amei."
“E casamentos na nobreza são realizados por amor?”
Heiner tinha razão. Eles eram um caso raro, tendo se apaixonado e eventualmente se casado. Na verdade, até isso era uma mentira.
O chá já havia esfriado. Annette murmurou baixinho.
"Estou falando a verdade, acredite você ou não."
Se seguir Ansgar era a melhor opção, agora ela já sabia a resposta.
Seus olhares se encontraram, o significado entre eles era incerto. Annette tomou outro gole de chá e colocou a xícara na mesinha de cabeceira.
"Estou cansada. Só quero dormir."
Heiner olhou fixamente para o rosto dela, como se tentasse confirmar suas palavras. Quando Annette virou a cabeça, ele se inclinou para a frente. Annette se virou e se deitou. Assim que Heiner apagou o abajur a gás, a escuridão tomou conta do quarto num instante.
Ouviu-se um farfalhar atrás dela quando ele se deitou na cama. Annette fechou os olhos e tentou dormir. Os dois corpos intocados esfriaram lentamente como a água de chá.
***
Heiner se levantou da cama ao amanhecer. A luz filtrada pelas cortinas entreabertas banhava o colchão com uma tonalidade pálida. Silenciosamente, ele retirou os cobertores e olhou para a mulher deitada do outro lado.
Annette, incapaz de adormecer até altas horas da noite, agora dormia profundamente. Seu rosto estava enterrado no cobertor, e seu corpo estava encolhido. O cobertor branco subia e descia em movimentos pequenos e regulares. Heiner inclinou-se para perto sem se dar conta. Sua bochecha macia ficou exposta entre os cabelos e o cobertor.
Sem perceber ele estendeu a mão para tocá-la mas parou. Então esfregou o rosto nas mãos, como se para acordar.
"É desconfortável. Eu devia ter pedido outro quarto…”
Já fazia muito tempo que ele não dividia a cama com Annette. Inicialmente, ele havia planejado reservar um quarto diferente, mas sentia-se estranhamente inquieto. Nem ele mesmo entendia a causa dessa inquietação.
Heiner tentou afastar da mente a imagem da mulher submersa na água do mar. Levantou-se silenciosamente da cama e caminhou em direção ao cabideiro. Heiner, que tirava um charuto do bolso do casaco, de repente notou um volume no bolso do cardigã de Annette que estava pendurado ao seu lado.
Ele retirou o conteúdo do bolso dela. Algo brilhava na escuridão. Pensou que fosse uma joia, mas, ao examinar mais de perto, viu que eram apenas fragmentos de coisas inúteis.
“O que é todo esse lixo?”
Ele se perguntava o que ela estava se esforçando tanto para coletar na praia, e era aquilo?
Por algum motivo, ele se sentia irritado. Heiner jogou tudo no lixo e saiu para a varanda. O ar livre tornava a respiração muito mais fácil.
Heiner não conseguia ficar muito tempo em um espaço escuro e confinado. Seu estado havia melhorado, então não era completamente impossível, mas ele ainda se sentia mentalmente exausto. Era por causa das lembranças da câmara de tortura.
A única pessoa que sabia disso era seu psiquiatra. Todos os outros que poderiam saber já estavam mortos há muito tempo.
A brisa fria da noite soprava em seus cabelos. Heiner olhava para o mar escuro, com o charuto apagado. Ele podia ouvir o som das ondas quebrando à distância.
Ele não era fumante. Havia parado de fumar há muito tempo, mas quando sua mente estava agitada, um charuto o ajudava a acalmá-la um pouco. Mesmo sem acendê-lo.
"Será psicológico?"
Heiner observou muitos casos desse tipo de padrão psicológico: pessoas reclamando de dor em uma perna que havia sido amputada há muito tempo, ou pessoas enganadas a tomar pílulas placebo durante a escassez em tempos de guerra, acreditando que elas eram eficazes.
Ele revirou os olhos e olhou para o charuto que estava segurando. Um charuto branco-amarronzado.
Ele parou de fumar há seis anos, mais ou menos na época em que começou a namorar Annette. Embora ela nunca tenha demonstrado qualquer aversão à fumaça ou ao cheiro, ele parou de fumar por vontade própria.
Não havia mais necessidade de se preocupar com as aparências para agradá-la, então não havia necessidade de parar de fumar. Mas Heiner ainda não conseguia acender um charuto.
Porquê…?
Ao chegar a esse ponto, Heiner franziu levemente a testa. Estalou a língua de leve e apoiou o braço no parapeito.
“Você deve ter me achado realmente patética.”
Se fosse esse o caso, ele não se sentiria tão sujo. Era problema dela ou dele que, não importa o quanto ela fosse humilhada e pisoteada, ela ainda parecesse tão nobre?
Heiner sorriu amargamente. Ele vinha ponderando sobre isso há muito tempo, mas ainda não havia conseguido chegar a uma conclusão.
Annette Valdemar.
Você toca nos meus pontos mais baixos e vulneráveis.
Me faz sentir infinitamente miserável.
Pelo menos este problema é seu e essa culpa é sua.
“Meu amor não serve para nada mesmo.”
Seu amor não é inútil.
Heiner mordeu os lábios em silêncio.
Ele queria que ela sentisse o desespero de não ser correspondida.
Queria que ela sofresse a realidade de querer algo inalcançável.
Esperava que o coração dela estivesse despedaçado e miserável.
Assim como ele uma vez já estivera.
Pelo menos Heiner precisava do amor dela.
Heiner ergueu a cabeça com uma expressão sombria. Depois de se certificar de que Annette ainda dormia, entrou silenciosamente no banheiro.
Abriu a torneira e a água fria jorrou. Ficou parado por um instante, com as pontas dos dedos na água corrente. E então sentia como se o lixo que Annette havia recolhido na praia estivesse chacoalhando dentro dele.

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