(Meu Querido Opressor) 

- by Seo Sahee -

12


Heiner estava de costas para a lua, então sua expressão na sombra era difícil de distinguir. Por algum motivo, as pernas de Annette fraquejaram assim que ela ouviu a voz dele.


Heiner segurou-a firmemente pelos braços enquanto ela cambaleava. Assim que ela recuperou o equilíbrio, ele a conduziu de volta até a margem da praia. Annette ficou de pé na areia e olhou para Heiner com cautela. Ao luar, seu rosto estava sombreado pela ponte alta do nariz. Sua figura era pálida e bela, como uma estátua perfeita. Seu maxilar se contraiu ao encontrar o olhar de Annette. Seus olhos acinzentados se estreitaram, como se estivessem afundando. Annette murmurou:


“Você está atrasado. Pensei que viria me encontrar mais cedo.”


"Calce os sapatos e arrume suas coisas. Agora." 


Heiner ordenou, com um olhar completamente inflexível. Com um leve aceno de cabeça, Annette tentou se levantar, mas parou. Ela sentiu uma dor aguda no pé.


Sangue escorria, ela havia pisado em algo sem querer. Annette hesitou em pedir a ele seus sapatos. Era um pedido aparentemente trivial, mas ela achou difícil mencionar. 


Heiner, que observava a cena, suspirou um tanto agitado. 


“Fique aí.”


Ele caminhou até onde estava a bagagem dela e pegou seus sapatos e uma sacola de papel. Annette distraidamente pegou a sacola de papel que lhe foi estendida. 

No instante seguinte, seu corpo foi repentinamente erguido. Annette soltou um grito curto e agarrou o casaco de Heiner. Uma das mãos de Heiner a apoiava pelas costas e a outra estava sob seus joelhos, com os sapatos pendurados em seus dedos.


"Eu vou andando…”


Annette gritou em pânico, mas ele não respondeu. A barra do vestido dela, encharcada de água do mar, molhou as roupas de Heiner.


"Não é como se eu não pudesse andar. Me ponha no chão, Heiner.”


Annette repetia, mas ele nem fingia ouvi-la. Ela finalmente desistiu e relaxou o corpo. Heiner saiu apressado da praia, carregando Annette em um braço e os sapatos dela em outro. A brisa fria do mar secou lentamente a umidade de sua pele.


Eles chegaram a um hotel próximo. Mesmo na entrada, Heiner não parecia disposto a deixá-la descer. Annette se contorceu levemente, tentando escapar.


“Por favor, me coloque no chão. Vou calçar meus sapatos…”


"Pare de se mexer."


Ele interrompeu Annette com uma voz sombria.


O humor de Heiner parecia extremamente baixo. Annette olhou para o pescoço dele, onde as veias eram levemente visíveis, e se perguntou:


“Ele está bravo por que eu fugi? Por quê…?”


Ela não esperava que ele ficasse bravo. Pensava que Heiner mandaria seus subordinados atrás dela, lhe daria algumas advertências e depois a trancaria no quarto. 


“Dessa vez, posso realmente acabar num hospital psiquiátrico.”


Enquanto Annette aguardava seu futuro com indiferença, Heiner entrou no hotel. 


Quando entraram sob as luzes fortes, Annette enterrou o rosto no peito dele. Ela temia que alguém a reconhecesse. O cheiro característico de Heiner ficou mais forte. Annette permaneceu imóvel, com o nariz no peito dele. Ela podia sentir o corpo dele enrijecer levemente.


Heiner talvez não gostasse daquilo, mas não tinha escolha. Foi ele quem inicialmente recusou o pedido para que ela descesse. Se não quisesse ficar tão perto dela, poderia simplesmente tê-la deixado descer.


Mas Heiner apenas endureceu os lábios ligeiramente enquanto ainda a segurava com firmeza.


Heiner, que havia recebido a chave de um quarto vago na recepção, entrou no elevador. Eles não trocaram nenhuma palavra até chegarem ao quarto. Assim que entrou, Heiner  jogou os sapatos dela para o lado com brutalidade. Também arrancou a sacola de papel que Annette carregava e a atirou descuidadamente. A bolsa dela, que ela havia colocado dentro da sacola de papel, caiu no chão. Heiner ergueu as sobrancelhas ao ver a bolsa preta. 


"Você a deixou na praia? E se alguém a roubasse?”


“...É verdade.”


Ela não pensou nisso. Parecia estúpido, mas ela realmente não pensou.


Annette nunca havia imaginado que alguém pudesse "roubar" suas coisas. Roubar as coisas de alguém era um ato muito grosseiro e vulgar. Ela nunca havia imaginado tal coisa. Nunca faltou nada na vida dela, então não havia necessidade de roubar. Por isso nunca entendeu tal ato. 


Além disso, Annette sempre teve empregados. Naturalmente, eles protegiam sua bagagem. Era algo com que ela não precisava se preocupar.


Enquanto Annette estava imersa assimilando a nova realidade, Heiner a carregou até o banheiro.


Ele empurrou a banheira de lata contra a parede e ajudou Annette a entrar. Annette se apoiou na parede, com o pé machucado levemente levantado.


"...Eu mesma lavo."


Ao ouvir essas palavras, Heiner a encarou por um instante, sem expressão. Depois, virou-se e saiu do banheiro, deixando a porta aberta.


Annette hesitou por um momento, então levantou a saia e lavou apenas as pernas e os pés. Com a porta aberta, ela só podia fazer isso. De qualquer forma, não havia água quente, e um banho seria difícil. A água lavou o sangue e a areia. O ferimento era mais profundo do que ela esperava. Quando examinou com os olhos, a dor que havia esquecido voltou com força. Annette desviou o olhar do ferimento.


 Na entrada do quarto externo, ouviu Heiner conversando com alguém. Parecia ser seu assistente. Annette enxugou a água rapidamente com uma toalha. Quando saiu do banheiro, Heiner já havia acendido o fogão a óleo e até preparado o kit de primeiros socorros.


Ele fez um gesto, como se a estivesse convidando a sentar. Enquanto Annette se sentava cuidadosamente na cama, Heiner examinou silenciosamente o ferimento em seu pé. Sua mão, que envolvia sua perna, era particularmente grande e quente. Por algum motivo, Annette não suportava o constrangimento daquela situação. Apesar de serem um casal, nunca haviam se olhado com atenção. Era apenas um pé, mas o constrangimento era o mesmo. O rosto de Heiner estava tão indiferente como sempre.


A sequência de ações, desinfetar o ferimento, aplicar o remédio e depois enfaixá-lo, parecia familiar para ele, como se fosse um velho hábito.


Enquanto dava o nó na bandagem, Heiner falou em tom frio:


“Em que você estava pensando?”


“...”


“Era tão importante vir a um lugar como este que você teve que enganar a pessoa que designei para acompanhar você?”


“...”


 “Por quê? Você tinha um encontro marcado com Ansgar Stetter aqui?”


Heiner sentou-se com um joelho no chão e olhou para ela com olhos furiosos. Mas a mão que segurava seu pé ainda era gentil.


“É só…”

Annette abriu a boca silenciosamente.


“É só um lugar comum.”


O choque entre seus olhares causou uma pequena ondulação no ar. Annette inclinou a cabeça. 


“Por que eu deveria pedir permissão para vir até um lugar tão comum, eu pensei.”


“Com permissão ou sem permissão, você se esqueceu de que é a esposa do Comandante Chefe? Você está em sã consciência para sair por ai sem um segurança?”


“Foi por isso que pedi o divórcio. Porque não quero mais ser a esposa do Comandante Chefe.”


“Então, isso foi um protesto para conseguir o divórcio?”


“Não. Eu só queria ver o oceano...”


Heiner deu um longo suspiro e colocou o pé dela no chão.


"Bem, não parece que você veio aqui só para isso."


"..."


"Você estava planejando se jogar no oceano esta noite?"


"Eu...!" 


Annette abriu a boca para recusar, mas não conseguiu pensar em uma resposta adequada. Finalmente, fechou os lábios novamente.


Annette não tinha certeza do porquê de ter feito aquilo. Ela definitivamente não pretendia se afogar ali e morrer. Mas isso não significava que ela estivesse pensando em viver.


"...Eu só queria molhar os pés."


Annette, angustiada, respondeu simplesmente. Ela não sentia nenhum motivo para ter que explicar a ele como se sentia, como estava se sentindo e o que se passava em sua mente. Heiner ergueu um canto da boca com uma expressão de desgosto desconhecida.


“Certo.”


Ele falou devagar, como se tentasse se convencer disso.


“Você tem medo de muitas coisas. Do escuro, de altura, de água…”


Annette o encarou sem expressão. As palavras de Heiner estavam parcialmente corretas, parcialmente erradas. Ela ainda tinha medo de muitas coisas. Mas os exemplos que Heiner mencionou eram do passado. 


Annette não tinha mais medo do escuro. Agora, ela gostava mais do escuro do que da luz. Assim ninguém podia vê-la. Ela não tinha mais medo de altura. E visto que ela entrou na água mais cedo sem hesitar, talvez também não tivesse mais medo de água. 


Era um tipo ligeiramente diferente de medo que Annette tinha agora.



“Você tem medo de coisas insignificantes mas nem se preocupa com o que acontecer quando sai por aí desacompanhada. Eu sempre odiei você por isso.”


“...”


“Esse seu pensamento ingênuo e tolo…Você nem consegue imaginar que alguém possa roubar suas coisas.”


“..."


"O mundo mudou, mas você continua a mesma. É tão irritante, mesmo depois de tudo, você não mudou nada. Você continua sendo a mesma mulher aristocrata repugnante de sempre."


Heiner terminou seu discurso, mastigando e cuspindo cada palavra. Ele não parecia nem um pouco aliviado mesmo depois de tê-las proferido. 


Um sentimento tão profundamente enraízado, pensou Annette distraidamente. Seu coração doía como se tivesse sido dilacerado, mas sua mente permanecia calma, como se já estivesse quebrada.


Annette repassou suas memórias. 


Há quanto tempo esse ódio existe? 


Quando exatamente tinha começado? 


Será que foi desde o momento em que se viram pela primeira vez?


Ou antes mesmo de saberem da existência um do outro?


“Heiner…”


Mas mais importante… 


“Você deve ter me achado tão patética.”


O que ele realmente pensava do meu amor?


tradução by CAMÉLIA

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